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segunda-feira, 24 de abril de 2017

Destino e a opção pelo caminho certo (Jorge Hessen)


Jorge Hessen


"Christiana, me prometa uma coisa. Aconteça o que acontecer na sua vida, nunca pare de caminhar", disse certa vez sua mãe, naqueles tempos miseráveis em que ela se chamava Christiana Mara Coelho. Sua primeira casa foi uma caverna no Parque Estadual do Biribiri, reserva natural próxima à cidade mineira de Diamantina. A segunda, uma favela de São Paulo. Mas quando ela tinha oito anos de idade foi levada para a Suécia pelos pais adotivos e passou a se chamar Christina Rickardsson.

A história das duas vidas de Christina se tornou um best-seller na cena literária da Suécia, com título dedicado às palavras da mãe. Sluta Aldrig Gå (Nunca Pare de Caminhar), livro de estreia da autora brasileira que já não fala o português. Junto com o livro, Christina Rickardsson também realizou outro sonho: criar uma fundação de assistência a crianças carentes no Brasil, a Coelho Growth Foundation. A fundação já desenvolve projetos de assistência a crianças em uma creche e dois orfanatos de São Paulo - incluindo aquele onde Christina viveu. A autora conta que também iniciou um projeto de colaboração com as favelas de Heliópolis, em São Paulo, e do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. [1]

Certa vez um amigo enunciou a seguinte citação: “o que é o destino, senão um gigante que achincalha nanicos seres como nós.”. Avaliando a história de Rickardsson podemos falar de “destino”, “carma” e “livre arbítrio”, não necessariamente nessa sequência.

A existência do destino supõe que nada acontece por acaso, mas que tudo tem uma causa predeterminada, isto é, os acontecimentos não surgem do nada, mas sim dessa força desconhecida. A corrente filosófica do determinismo defende que todos os pensamentos e todas as ações humanas se encontram causalmente determinados por uma cadeia de causa e consequência. Para o determinismo radical, não existe nenhum acontecimento que seja por acaso ou coincidência, ao passo que o determinismo flexível sustenta que existe uma correlação entre o presente e o futuro, submetida à influência de eventos aleatórios.

A expressão “carma” não é citada por Kardec, ou pelos espíritos comunicantes das obras básicas. Todavia, como sinônimo de ação e reação, a cada nova existência o homem experimentará novos desafios, inexoravelmente, até atingir a perfeição.

Para muitas religiões, o destino é um plano criado por Deus que não pode ser alterado pelos seres humanos. O Espiritismo, por sua vez, não advoga que exista uma predestinação absoluta e defende que Deus dotou o homem do livre arbítrio (o poder para tomar as suas próprias decisões). Nossa ponderação é no sentido de amoldarmos o conceito destino, retirando-lhe os conteúdos deterministas, para uma visão larga e transcendental, mais apropriada com os aspectos educativos e retificadores da reencarnação.

Na questão 132 de O Livro dos Espíritos, o Codificador interroga sobre qual seria o objetivo da encarnação. Os Espíritos explicam que “A lei de Deus impõe a encarnação com o objetivo de fazer-nos chegar à perfeição...”. Ainda com relação ao destino, utilizado como sinônimo de “fatalidade”, Kardec pergunta aos espíritos, no item nº 851: “Haverá fatalidade nos acontecimentos da vida, conforme o sentido que se dá a essa palavra, ou seja, todos os acontecimentos são predeterminados? Nesse caso, como fica o livre-arbítrio?” Os Benfeitores aclaram o tema elucidando – A fatalidade existe apenas na escolha que o Espírito faz ao encarnar e suportar esta ou aquela prova. E da escolha resulta uma espécie de destino, que é a própria consequência da posição que ele próprio escolheu e em que se acha. Falo das provas de natureza física porque, quanto às de natureza moral e às tentações, o Espírito, ao conservar seu livre-arbítrio quanto ao bem e ao mal, é sempre senhor para ceder ou resistir ...”. [2]

Christina Rickardsson, após ser adotada, escolheu seu rumo de vida. A liberdade de escolher nosso próprio destino, todos os dias, torna-se o diferencial entre o gênero humano e os animais inferiores, que ainda não podem discernir entre o bem e o mal, o certo e o errado, o moral e o imoral. Evoluir é o nosso destino, como evoluir, pelo conhecimento ou através da dor, é sempre uma questão de escolha.

O que não podemos mudar são os fatos principais da nossa reencarnação, os quais traçamos juntamente com nossos “padrinhos” espirituais, no momento da escolha da vida que merecemos e precisamos ter. “A cada um será dado segundo suas obras”. No mundo espiritual, no intervalo das reencarnações, escolhemos, consciente ou inconscientemente, o gênero de provas, de acordo com nossas necessidades e possibilidades adquiridas pela conduta.

Entretanto, ao reencarnarmos, não ficamos escravos desse modo de vida, uma vez que as particularidades correm por nossa conta. A todo instante, podemos escolher a atitude a tomar, como disseram as Entidades Sublimadas: “Dando ao Espírito a liberdade de escolher, Deus lhe deixa a inteira responsabilidade de seus atos e das consequências que estes tiveram. Nada lhe estorva o futuro; abertos se lhe acham, assim, o caminho do bem, como o do mal”. [3] Rickardsson optou pelo caminho sensato, pois que percebeu que como ela existem irmãos necessitados do amparo para orientar a tomada de melhores decisões, que estão sim ao nosso alcance, e que uma vez que enxerguemos esse propósito, naturalmente estaremos cumprindo o real sentido da vida, e fazendo o bom uso de nossa oportunidade do livre arbítrio.



Referências bibliográficas:

[1] Disponível em http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39203681 acesso 23/o4/2017
[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, RJ: Ed. FEB, 2002, per. 132 e 851 

[3] idem questão 258

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Vinte e Um (21) Questionamentos sobre Roustaing e/ou Ubaldi


Leonardo Marmo Moreira

1) Qual Espírito evoluído, em obra mediúnica de elevada qualidade (chancelada por aprovação através dos parâmetros kardequianos de avaliação do conteúdo da mensagem de origem espiritual), relata que estava reencarnando ou já tinha reencarnado como “criptógamo carnudo” (ou algo que o valha, tal como uma minhoca ou uma lesma etc.), como Roustaing afirma, ou que teria voltado a ser um átomo, como Ubaldi sugere?!

2) Qual Espírito evoluído, em obra mediúnica de elevada qualidade (chancelada por aprovação nos parâmetros kardequianos de avaliação do conteúdo da mensagem de origem espiritual), afirma, contundentemente, não ter encarnado nenhuma vez, tendo feito todo o seu processo de evolução no plano espiritual (conforme a obra de Roustaing frisa categoricamente)?

3) Por que Emmanuel e Chico Xavier escreveram cinco (5) livros em parceria com Herculano Pires, um dos mais notáveis, aguerridos e reconhecidos adversários da mistificação roustainguista?! E, que, ademais, criticou duramente as propostas feitas por Ubaldi, sugerindo que o movimento espírita aderisse aos livros ubaldistas?!

4) Por que Emmanuel e Chico Xavier não escreveram com vários roustainguistas famosos como Luciano dos Anjos, entre diversos outros, ao invés de escrever com um denunciador dos delírios roustainguistas, como é o caso de Herculano Pires? Por que Emmanuel e Chico Xavier não escreveram, inclusive, com Pietro Ubaldi?

5) Por que Emmanuel considerou Herculano Pires “a maior inteligência espírita contemporânea”, se Herculano não só não aceitava como combatia contínua e contundentemente a obra de Roustaing, que seria, segundo o advogado de Bordeaux, a “Revelação da Revelação”?

6) Por que o livro “Evolução em Dois Mundos”, de autoria espiritual de André Luiz através das mediunidades de Chico Xavier e Waldo Vieira, e que foi prefaciado por Emmanuel (considerado pela famosa pesquisa da Editora Candeia, em 1999, o nono melhor livro espírita do século XX) nada fala sobre “evolução exclusivamente no mundo espiritual (daí, a razão do título “Evolução em Dois Mundos”) e nem de “metempsicose na forma de “criptógamo carnudo” (assim como Roustaing propõe!) ou de um retorno para o átomo (como Pietro Ubaldi escreve!)?!

7) Por que Bezerra de Menezes-Espírito (portanto, depois de desencarnado!) jamais divulgou a obra de Roustaing, e nem a de Ubaldi, seja por Chico Xavier, seja por Divaldo Franco e até mesmo por Yvonne Pereira?

8) Por que Chico Xavier afirma categoricamente que, no encontro com Pietro Ubaldi, o qual os ubaldistas adoram lembrar, o mentor espiritual falava várias e reiteradas vezes para Ubaldi voltar para a Itália e ficar na Itália e não vir definitivamente para o Brasil?! Ubaldi desobedeceu o mentor espiritual ou não tinha mediunidade para receber e/ou entender a mensagem espiritual? E se Ubaldi não tinha mediunidade ou condições de entender, por que não pediu conselhos e informações a Chico Xavier?! Não tinha humildade suficiente para isso?!

9) Como é que roustainguistas conseguem ser ubaldistas e vice-versa, se Jesus para Roustaing era uma figura praticamente mitológica, uma espécie de “semideus fluídico”, filho de Deus e de uma virgem (vide a obra do roustainguista Guillon Ribeiro assim como o conceito divulgado por vários roustainguistas de “Jesus, nem Deus, nem homem”) e para Ubaldi ele era um Espírito decaído, em corpo de carne, em processo expiatório no “Anti-Sistema”, tentando reabilitação para voltar ao “Sistema” (espécie de “Reino dos Céus Ubaldista", do qual Jesus tinha sido banido e só no último suspiro de vida física na cruz, tinha readquirido o direito para retornar ao “Sistema”), conforme assevera o italiano em sua obra “O Cristo”?

10) Se a “Falange do Espírito de Verdade” e o próprio Allan Kardec no capítulo “Moral Estranha”, de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, entre diversas outras passagens da Codificação, enfatizam que há textos que não foram traduzidos adequadamente e outros claramente deturpados ou até adulterados na Bíblia, porque os Espíritos de Roustaing assim como os roustainguistas em geral, pretendem explicar todos ou praticamente todos os versículos?

11)  Por que João Evangelista ensinaria conceitos completamente discordantes para a obra de Kardec e para a obra de Roustaing? Ou um dos Espíritos tidos como “João Evangelista”, para Kardec, e para Roustaing, não era, de fato, o mesmo Espírito, isto é, o famoso filho de Zebedeu e Salomé? Nesse caso, qual seria o verdadeiro: o Espírito que assina o “Prolegômenos” de “O Livro dos Espíritos” de Kardec, ou aquele de “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing?

12) Se o Espiritismo veio à Terra, entre outros motivos, para esclarecer muitos erros doutrinários que o Cristianismo, e, em especial, o catolicismo, havia “assimilado”, por que Roustaing e Ubaldi recomendam a prática da eucaristia, que é um desses erros, para espíritas e para todos os demais cristãos?!

13) Roustaing, antes, durante e depois de publicar sua obra, jamais participou efetivamente do movimento espírita. Por acaso, Roustaing achou  que a só a mera publicação de seu livro, vendido como “Revelação da Revelação”, era suficiente? A atitude comodista e preguiçosa dele ou a atitude de trabalho incessante de Kardec é aquela que denota assistência dos bons Espíritos e verdadeiro comprometimento missionário?

14) Ubaldi, antes, durante e depois (nos poucos meses que restavam de vida física) de escrever/publicar sua vasta obra, jamais buscou integrar-se no movimento espírita (nem mesmo assumiu-se como espírita!), mesmo depois de oferecê-la como uma espécie de “tábua de salvação” ao Espiritismo! Afinal, Ubaldi só queria vender livros ou queria, de fato, ajudar diariamente no trabalho espírita, tal como Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco, Gabriel Delanne, Léon Denis e o próprio Allan Kardec sempre fizeram?! Qual atitude parece ser a de um verdadeiro missionário do bem e, mais especificamente, do idealista espírita?

15) Pietro Ubaldi afirma ser a reencarnação do Apóstolo Pedro (isso mesmo, ele afirma ser São Pedro! Era ou não era muito “humilde” esse Pietro Ubaldi?!). Divaldo Pereira Franco nega contundentemente essa ideia em um capítulo de sua biografia de autoria de Ana Landi, recentemente publicada. Qual dos dois deve estar errado: Ubaldi ou Divaldo?! Em qual dos dois você confia mais doutrinariamente?!

16) Além de ficar com os direitos autorais de sua obra, Ubaldi fez questão de receber um apartamento em bairro nobre de São Vicente-SP, o qual foi proporcionado por adeptos do Espiritismo. O trabalho de Ubaldi, por acaso, lembra o desapego de seu “ídolo” Francisco de Assis ou mesmo de Chico Xavier?! O trabalho espiritual totalmente gratuito não deveria ser respeitado por aquele que, dizendo-se “franciscano”, queria “tirar o Espiritismo da estagnação”?!

17) Por que Ubaldi praticamente não tinha livro algum em sua casa, a não ser os livros de sua própria autoria, ou seja, livros dele, Pietro Ubaldi? Um suposto atualizador da Doutrina Espírita não teria que estudar profundamente Allan Kardec e diversas obras subsidiárias espíritas de qualidade?! O quanto será que Kardec lia?! E, ademais, Ubaldi não deveria procurar atualizar seus estudos científicos e ler páginas evangélicas, tais como aquelas de Emmanuel, para manter sua “vigilância” e reflexão evangélica sempre em constante renovação?! Vale frisar que Divaldo Franco afirma ler a Codificação todos os dias, o que acontece com vários trabalhadores espíritas! Será que aquele que se lançou como “atualizador” do Espiritismo não teria que fazer isso e muito mais?!

18) Por que Gabriel Delanne, Léon Denis e Camille Flammarion, os maiores continuadores de Allan Kardec, verdadeiros “Apóstolos do Espiritismo”, à semelhança de Allan Kardec, rejeitaram a obra de Roustaing?! Kardec, Delanne, Denis e Flammarion estavam, todos eles, completamente equivocados sobre Roustaing?! Os quatro estariam fascinados e só Roustaing iluminado?!

19) Por que Divaldo Pereira Franco e José Raul Teixeira jamais citavam Roustaing e Ubaldi em suas palestras?! A obra de Roustaing e Ubaldi teria algum valor real para os espíritas se os mais notáveis expositores das últimas décadas no movimento espírita as ignoraram solenemente?!

20) Se muitos roustainguistas consideram a obra de Ubaldi o desenvolvimento do trabalho de Roustaing, por que a Federação Espírita Brasileira (FEB) publicou somente “A Grande Síntese”, primeiro livro de Ubaldi? Será que a editora da referida instituição percebeu algum limitação na obra? Ou foi um problema de “doação”, ou não, de direitos autorais? Ou teria sido outro tipo de desentendimento?

‘           21) E, finalmente, se Erasto, um dos Espíritos mais importantes da Codificação Kardequiana afirmou em “O Livro dos Médiuns” que “...é preferível rejeitar 10 verdades do que aceitar uma única mentira, uma única teoria falsa” por que será que alguns supostos “espíritas”, também supostamente portadores de ideais elevados, insistem em divulgar obras que estão claramente em oposição aos princípios espíritas?!

Reflitamos com sinceridade doutrinária...


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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Caiu do avião, do paraquedas, do arranha céu e não faleceu – “milagre”? (Jorge Hessen)


Jorge Hessen 

Só metade das pessoas que caem de uma altura de três andares sobrevivem. Se forem dez andares, quase ninguém resiste. Mas, incrivelmente, o equatoriano Alcides Moreno, um limpador de janelas de Nova York, sobreviveu a uma queda de 47 andares do edifício Solow Tower, em Manhattan, na manhã de 7 de dezembro de 2007. "É um milagre", disse Herbert Pardes, então presidente do Hospital Presbiteriano de Nova York, onde Alcides foi atendido. Os espíritas não acreditamos em “milagres”. [1] 

Consideremos outros fatos mais assombrosos. James Boole, Nicholas Alkemade, Vesna Vulóvic e Alan Magee também desafiaram as leis naturais conhecidas pela ciência ao escaparem da “morte” física a quedas de alturas elevadíssimas. 

James Boole saltou na Rússia do avião, seu paraquedas não funcionou e caiu sobre pedras cobertas de neve, a uma velocidade de 160 km/h – mesmo assim Boole não desencarnou, e apenas fraturou uma costela. 

Nicholas Alkemade, sargento e membro da RAF, estava voando pela Alemanha quando seu avião foi atacado. A aeronave logo virou uma bola de fogo em queda livre. Como seu paraquedas foi destruído pelo fogo, Alkemade resolveu ter uma “morte” rápida saltando do avião para não sofrer sendo queimado lentamente. Ele caiu de 5500 metros, mas o impacto foi absorvido por árvores e pela neve que cobria o chão. Nicholas sofreu apenas uma torção na perna. 

Vesna Vulóvic é uma aeromoça que sobreviveu a uma queda de dez mil metros. Com 22 anos, Vesna era comissária de bordo da Yugoslav Airlines. No seu vôo havia uma bomba instalada por terroristas croatas. A parte em que estava no avião caiu em uma encosta coberta de neve, e Vesna foi a única sobrevivente do acidente. As outras 28 pessoas, incluindo pilotos, comissários e passageiros, desencarnaram. 

Alan Magee é um piloto americano que sobreviveu a uma queda de mais de 6500 metros enquanto estava sob ataque, na Segunda Guerra Mundial. Ele caiu sobre o vidro da Estação de Trem St. Nazaire, em uma missão na França. De alguma forma o vidro amorteceu sua queda. Ele foi capturado por tropas alemãs posteriormente, que ficaram impressionadas com o feito. 

Como notamos, os personagens são pontos fora da curva, ou seja, não desencarnaram. Será que há alguma explicação espírita para os fatos? Das leis naturais ignoramos seus meandros, sobretudo considerando a gravitação. Recordemos que na época das “mesas girantes” os espíritos conseguiam promover a levitação de objetos pesados, desafiando, pois, as leis da física conhecida (gravidade). 

Há pessoas que sobrevivem a um perigo mortal mas em seguida “morrem” noutro. “Parece que não podiam escapar da “morte”. Não há nisso fatalidade?, perguntou Allan Kardec aos Espíritos. Estes foram categóricos: “Fatal, no verdadeiro sentido da palavra, só o instante da morte o é. Chegado esse momento, de uma forma ou doutra, a ele não podeis furtar-vos.”[2] O Codificador insistiu: “Assim, qualquer que seja o perigo que nos ameace, se a hora da “morte” ainda não chegou, não morreremos? Os Benfeitores pacificaram: “Não; não perecerás e tens disso milhares de exemplos. Quando, porém, soe a hora da tua partida, nada poderá impedir que partas.” [3] 

Reflitamos o seguinte: Por não ter chegado a hora da “morte” de Moreno, Boole, Alkemade, Vulóvic e Magee, considerando as situações extremas vividas, seria admissível que eles fossem resguardados por intervenções do além, numa espécie de “anulação” da lei da gravidade conhecida? Não é simples responder tais questões. O senso comum diz que ninguém “morre” de véspera. Ora, se só “morremos” quando é chegada a hora, então uma pessoa assassinada “morre” na hora certa? Como fica o livre arbítrio do assassino nesse caso? 

Importa acender a luz para uma boa discussão aqui. Por diversas razões e é natural que alguém possa ter a vida interrompida antes do tempo tanto quanto possa ter a vida delongada durante o transcurso de uma existência. 

Será que o Espírito que comete um assassinato sabia que reencarnou para matar? “Não! Responderam os Benfeitores. “Escolhendo uma vida de lutas, sabe que terá ensejo de matar, mas não sabe se matará, visto que ao crime precederá quase sempre, de sua parte, a deliberação de praticá-lo. Ora, aquele que delibera sobre uma coisa é sempre livre de fazê-la, ou não. Se soubesse previamente que teria que cometer um crime, o Espírito estaria a isso predestinado. Ora, ninguém há predestinado ao crime e todo crime, como qualquer outro ato, resulta sempre da vontade e do livre-arbítrio. [4] 

O tema parece simples, porém apresenta as suas complexidades. E para complicar um pouquinho, os Espíritos reenfatizam - “venha por um flagelo a “morte”, ou por uma causa comum, ninguém deixa por isso de “morrer”, desde que haja soado a hora da partida.” [5] Será que tudo que se relacione à “morte” está “escrito”? (assassinato, por exemplo?). Onde encaixar o livre-arbítrio aqui? 

Reconheço, com muita humildade, que há “mistérios” inexplicáveis muito além da minha nanica razão. E mais, “do fato de ser infalível a hora da “morte” poder-se-á deduzir que sejam inúteis as precauções que tomemos para evitá-la? Os Espíritos dizem que “não!, visto que as precauções que tomamos são sugeridas com o fito de evitarmos a morte que nos ameaça. São um dos meios empregados para que ela não se dê.”[6] 

No caso dos personagens que protagonizam este artigo, considerando as condições extremas, diria quase que surreais que sucederam, como sobreviveram? Foi porque não “soou a hora da partida” deles? Hum!?... 

Quanto ao “milagre” citado por Herbert Pardes, presidente do Hospital Presbiteriano de Nova York, esclarecemos que o Espiritismo considera de um ponto mais elevado a religião cristã; dá-lhe base mais sólida do que a dos “milagres”: as imutáveis leis de Deus, a que obedecem assim o princípio espiritual, como o princípio material. Essa base desafia o tempo e a Ciência, pois que o tempo e a Ciência virão sancioná-la. [7] 

Referências bibliográficas: 

[1] Disponível em http://www.bbc.com/portuguese/geral-39216175 acesso 10/04/2017 

[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, per. 53, RJ: Ed. FEB, 2000 

[3] Idem, per. 53-a 

[4] Iem , per. 861 

[5] Idem, per. 738 

[6] Idem, per. 854 


[7] KARDEC, Allan. A Gênese,”Os milagres segundo o Espiritismo”, Capítulo XIII, RJ: Ed FEB, 2000 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

PÁSCOA - SOMOS UMA HUMANIDADE DE RESSUSCITADOS


     Margarida Azevedo 
Sintra/Portugal


            Do cativeiro para a liberdade, da dor para a alegria, do desespero para a esperança, é tempo de reflectir sobre o significado da vivência pascal nos nossos dias.

            Há séculos que este episódio se repete em rituais, orações e preceitos. É tempo de se lhe acrescentar a vivência interior, perceber o que significa ser livre, ser libertado por um Ser invisível, mas que se revela mediante a Sua presença na história do mundo. Por outras palavras, um deus que não seja mundo não é Deus; o Seu reino é o reino do mundo, porque um rei não governa apenas o seu palácio mas todo o reino.

            Celebrar significa desnudar o lado invisível, assentar na terra a consciência de que Deus está presente em cada momento, em cada gesto, em cada palavra; celebrar o céu e a terra, não numa contiguidade, mas como uma unidade, uma realidade única. Vivemos num só reino.

É desta forma que a mensagem de Jesus entra no mais recôndito da alma, transformando cada homem e cada mulher num responsável espiritual, um líder da oração e da paz na sublimidade da fé. Ao lembrarmos a Última Ceia somos levados, inevitavelmente, à memória de Jerusalém daquele tempo. Eternizamos na nossa mente a acção dramática de um episódio que se tornará determinante da espiritualidade do ocidente: Aquele partir do pão, aquele vinho celebram o lado concreto da dimensão espiritual, o tangível, visível e palpável; o pão e o vinho que outrora foram da miséria, tomados num país estrangeiro, em cativeiro.

Por isso a comunhão de mesa é um gesto intimista, de alegria. Efectivamente, nada existe de mais feliz que partilhar uma refeição com amigos. De que serviria ressuscitar se, à chegada, não houvesse alguém de braços abertos numa recepção em alegria? Ressuscitar é aparecer perante alguém num abraço, num caminho qualquer, em qualquer momento. Todos os momentos são bons para ressuscitar. Os cristãos lembram a ressurreição como determinante para a sua fé. Ora é tempo de a lembrar como um episódio da carne que se tornou espírito, na  medida em que o Espírito habita na Carne, em cohabitação, na partilha de uma origem comum. Em nome de um Deus que criou e se revelou ao mundo, a Vida Eterna é mundo, ao lado de quaisquer episódios na densidade do mundo. Na verdade, somos todos ressuscitados.

Assim, uma multiplicidade de questões pairam sobre as nossas cabeças: Onde está a nossa pedra removida? Que anjo no anunciam? Quem nos vem procurar ao túmulo? Quem nos unge e com que perfumes? Que caminhos escolhemos para dar de caras com quem não nos espera? Que mensagem transportamos? Que universo de esperança testemunhamos? Onde está o Sinai da nossa fé, da Lei que seguimos? A que povo  pertencemos?

A fé transporta-nos para a procura do nosso Monte Sinai. Em cada Páscoa não é do Egipto que nos aproximamos, mas da Terra Prometida na esperança de que algo se revele,  que apresente soluções viáveis e definitivas através das quais nos sintamos mais próximos de Deus, pois não são novas leis o que procuramos, mas novas propostas de vivência das que já temos, ajustes objectivos às realidades caóticas dos nossos dias.

Há muito que a Páscoa não tinha um sentido tão incisivo. Que o digam todos os que fogem da morte em cenários de guerra, os deslocados, os aflitos, os que choram, os desempregados, os que engrossam os números largos da indigência, os que servem para tudo. Que passsagem no catastrófico, no caótico, na indiferença? Que páscoa? Que esperança?

Onde está Deus?, pergunta-se sempre nos momentos-limite. Como viver desprovido de projecção para o amanhã se se vive um vazio, um presente oco? Deus parece continuar a ocultar-se. Porém, perguntar por Deus é perguntar por nós mesmos, a ocultação de Deus é a nossa ocultação: se me escondo de ti, então tornas-te oculto para mim. Onde está o futuro para Deus se não há homens/mulheres que O reflictam? Associamos a Deus o futuro, habitualmente. Esquecemos-nos de que a construção de Deus dentro de nós é presente. Nós não temos futuro pascal, temos um presente na memória de uma fé que é imortal.

Jesus desejou ir a Jerusalém pela Páscoa. Foi a pior altura para o fazer. A festa da Libertação para a Terra Prometida; o mesmo povo estava agora retido pelo o invasor romano, que, obviamente, não via tais festejos com bons olhos. A cidade transbordava de gente que a ela acorria vinda de todos os lados; o comércio dos animais para os holocaustos era intenso, circulavam diferentes moedas justificando a presença de numerosos cambistas.

Temos um crucificado que, na ignomínia da cruz, crucifica com ele a grande questão da humanidade: Porque sofremos? Simultaneamente, desfatalizou a lado errado da vida, num universo de esperança sem fim. Não estamos no sofrimento porque sim, estamos nele de passagem. A Cruz muda o sentido existencial do sofrimento para dar lugar ao conceito de eternidade em louvor e graça, no banquete do reino de Deus. O sofrimento é a realidade pascal no exemplo de Jesus juntamente com a lembrança de um povo que fora subjugado. Talvez seja essa a intenção de Jesus na ida a Jerusalém: não querer deixar de partilhar com os discípulos nem privá-los de celebrar a identidade do seu povo, porque a defesa de uma identidade acarreta, inevitavelmente, responsabilidades, e a maior de todas é, com toda a certeza, a construção da Paz.

Que a Páscoa seja cada vez mais uma celebração comemorativa, algo que aconteceu há muito, muito tempo, e não realidade de um presente no qual ainda há um povo que espera, ansioso, pela sua libertação.


            Margarida Azevedo

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Vida inteligente só existe na Terra? (Jorge Hessen)




Jorge Hessen
jorgehessen@gmail.com

Há dois mil anos, Jesus anunciou que "há muitas moradas na Casa do meu Pai". (1) Presentemente, não é difícil compreendermos que Deus criou Sua Casa (Universo), em cuja moradas estão os incontáveis planetas. Astrônomos detectaram atmosfera ao redor de GJ 1132b, um exoplaneta rochoso de um tamanho próximo ao da Terra, o que representa um passo significativo na busca de vida fora do nosso Sistema Solar.

É a primeira vez que se detecta uma atmosfera ao redor de um planeta com uma massa e um raio semelhantes aos da Terra", disseram os cientistas, cuja descoberta foi publicada na revista Astronomical Journal. (2) Esta detecção faz do planeta GJ 1132b um alvo prioritário de observações para o telescópio espacial Hubble, o telescópio gigante europeu de Observação Austral (ESO), que está no Chile, assim como para o futuro James Webb Space Telescope, cujo lançamento está previsto para 2018. (3)

Há duas décadas, a Astronomia tem registrado a descoberta de centenas de novos planetas, pertencentes a outros sistemas planetários. Na conferência anual da Sociedade Astronômica Norte-Americana, em cada descoberta, envolvendo os planetas de fora do nosso Sistema Solar (exoplanetas), apontam para a mesma conclusão: orbes, como a Terra, são, provavelmente, abundantes, apesar do violento Universo de estrelas explosivas, buracos negros esmagadores e galáxias em colisão.

O Sistema Solar possui 9 planetas com 57 satélites. No total, são 68 corpos celestes. E, para que tenhamos noção de sua insignificância, diante do restante do Universo, "nosso Sistema compõe um minúsculo espaço da pequena da Via Láctea" (4), ou seja, um aglomerado de, aproximadamente, 100 bilhões de estrelas, com, pelo menos, cem milhões de planetas, que, segundo Carl Seagan, no mínimo, 100 mil deles com vida inteligente e mil com civilizações mais evoluídas que a nossa. (5)

Segundo Allan Kardec , "repugna à razão crer que esses inumeráveis globos que circulam no espaço não são senão massas inertes e improdutivas."(6) A Ciência vem descobrindo, incessantemente, planetas situados em outros sistemas estelares. No campo das pesquisas científicas "o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem estar em erro, acerca de um ponto qualquer, ele se modificará nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará." (7)

Aqueles seres, explica o mentor de Chico Xavier: "angustiados e aflitos, que deixavam, atrás de si, todo um mundo de afetos, não obstante os seus corações empedernidos na prática do mal, seriam degredados na face obscura do planeta terrestre; andariam desprezados na noite dos milênios da saudade e da amargura; reencarnariam no seio das raças ignorantes e primitivas, a lembrarem o paraíso perdido nos firmamentos distantes. Por muitos séculos, não veriam a suave luz da Capela, mas trabalhariam na Terra acariciados por Jesus e confortados na sua imensa misericórdia."(8) Sobre isso Agostinho afirmou no século XIX que "não avançar é recuar, e, se o espirito não se houver firmado bastante na senda do bem, pode recair nos mundos de expiação, onde, então, novas e mais terríveis provas o aguardam".(9)

Na Revista Espírita de Agosto/1858, publicou um desenho psicopictografado (desenho mediúnico) e assinado pelo Espírito Bernard Palissy, célebre oleiro do século XVI, referente “a uma habitação em Júpiter, que seria a casa de Mozart. Somos também informados de que Cervantes seria vizinho de Mozart e que por lá também viveria Zoroastro.” (10)

Em 1938 o Espírito Emmanuel informou que na “Constelação do Cocheiro, cerca de 42 anos luz distante de nós, há o sistema de Capela, de onde milhares de anos atrás alguns milhões de Espíritos rebeldes que lá existiam, foram deportados para o nosso planeta. Aqui aprenderiam a realizar, na dor e nos trabalhos penosos, as grandes conquistas do coração, impulsionando simultaneamente o progresso dos seres terrestres.". (11)

Na questão 172 de O Livro dos Espíritos, Kardec perguntou: “As nossas diversas existências corporais se verificam todas na Terra?”, ao que os Espíritos responderam: “Não; vivemo-las em diferentes mundos. As que aqui passamos não são as primeiras, nem as últimas; são, porém, das mais materiais e das mais distantes da perfeição.”. (12)

Sabe-se hoje em dia existirem, pelo Universo observável, pelo menos 10 bilhões de galáxias. Em 1991, em Greenwich, na Inglaterra, o observatório localizou um quasar (possível ninho de galáxias) com a luminosidade correspondente a 1 quatrilhão de sóis [isso mesmo, 1 quatrilhão!]. Acreditar que somente a Terra tenha vida é supor que todo esse imensurável Universo tenha sido criado sem utilidade alguma, e seria uma impossibilidade matemática que num Universo tão inimaginável não se tivesse desenvolvido vida inteligente, senão neste pequeno planeta. Aliás, seria um incompreensível desperdício de espaço.

Referências bibliográficas:
[1]João 14:2
[2]https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/afp/2017/04/07/detectada-atmosfera-ao-redor-de-exoplaneta-do-tamanho-da-terra.htm
[3]https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/afp/2017/04/07/detectada-atmosfera-ao-redor-de-exoplaneta-do-tamanho-da-terra.htm
[4]As últimas observações do telescópio Hubble (em órbita), mostram o número de galáxias conhecidas de 50 milhões.
[5]XAVIER, Francisco Cândido. Carta de uma morta, ditado pelo Espirito Maria João de Deus, São Paulo: LAKE, 1999.
[6]XAVIER, Francisco Cândido. Novas Mensagens, ditado pelo espírito Humberto de Campos, Rio    de Janeiro: Ed. FEB,  1940
[7]FLAMMARION Nicolas Camille. Urânia, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1990.
[8]KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001, perg. 55
[9]Disponível em http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com.br/2010/01/argumentos-espiritas-sobre-existencia.html
[10]KARDEC, Allan. Na Revista Espírita de Agosto/1858, Brasília: Editora EDICEL, 2002
[11]XAVIER, Francisco Cândido. A Caminho da Luz, RJ: Ed. FEB, 2002
[12]KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 172, RJ: Ed FEB, 2002







Sempre pela conservação da vida ante a moléstia delongada (Jorge Hessen)



Jorge Hessen



No dia 11 de abril de 2017,  a Justiça britânica autorizou aos médicos desconectar, contra a vontade dos pais, o suporte vital a Charlie Gard , um bebê de oito meses,  que sofre de uma rara doença genética.  A decisão do Alto Tribunal foi recebida com gritos de "não!" pela família, que pretendia levar o bebê aos Estados Unidos para um tratamento experimental. No entanto, os médicos do Hospital Great Ormond Street de Londres consideram que já é hora de que a criança, que sofre de danos cerebrais, receba cuidados paliativos.

Os pais de Charlie Gard estão "arrasados" com a decisão judicial, segundo sua advogada, Laura Hobey-Hamsher. O juiz Nicholas Francis disse que tomou a decisão "com a maior das tristezas", mas com "a absoluta convicção" de estar fazendo o melhor para o bebê, que merece "uma morte digna".

Durante o julgamento, uma médica explicou que a criança já não ouve nem se mexe, e que está sofrendo desnecessariamente. Charlie tem uma forma de doença mitocondrial que causa o enfraquecimento progressivo dos músculos e danos cerebrais.

O caso despertou grande interesse no Reino Unido e seus pais, Chris Gard e Connie Yates, abriram uma campanha de arrecadação de fundos que atingiu o 1,2 milhão de libras de que necessitavam para levar a criança aos Estados Unidos, graças às doações de mais de 80.000 pessoas.[1]

Temos aqui um exemplo clássico de autorização de eutanásia ? Cremos que não! - A eutanásia encerra outra característica, lembrando que é uma prática que não tem o apoio da Doutrina Espírita. Apareceu, no entanto, ultimamente a ideia de ortotanásia, defendida até mesmo por médicos espíritas.

Muitos médicos revelam que eutanásia é prática habitual em UTI’s do Brasil, e que apressar, sem dor ou sofrimento, a morte de um doente incurável é ato frequente e, muitas vezes, pouco discutido nas UTIs dos hospitais brasileiros. Apesar de a Associação de Medicina Intensiva Brasileira negar que a eutanásia seja frequente nas UTIs, existem aqueles que admitem razões mais práticas, como, por exemplo, a necessidade de vaga na UTI, para alguém com chances de sobrevivência, ou a pressão, na medicina privada, para diminuir custos.

Nos Conselhos Regionais de Medicina, a tendência é de aceitação da eutanásia, exceto em casos esparsos de desentendimentos entre familiares, sobre a hora de cessar os tratamentos. Médicos e especialistas em bioética defendem, na verdade, um tipo específico de eutanásia, a ortotanásia que é o caso acima de Charlie Gard, que seria o ato de retirar equipamentos ou medicações, de que se servem para prolongar a vida de um doente terminal.

Ao retirar esses suportes de vida (equipamentos ou medicações ), mantendo apenas a analgesia e tranquilizantes, espera-se que a natureza se encarregue da morte. A eutanásia vem suscitando controvérsias nos meios jurídicos, lembrando, no entanto, que a nossa Constituição e o Direito Penal Brasileiro são bem claros: constitui assassínio comum. Nas hostes médicas, sob o ponto de vista da ética da medicina, a vida é considerada um dom sagrado e, portanto, é vedada ao médico a pretensão de ser juiz da vida ou da morte de alguém.

A propósito, é importante deixar consignado que a Associação Mundial de Medicina, desde 1987, na Declaração de Madrid, considera a eutanásia como sendo um procedimento eticamente inadequado. No aspecto moral ou religioso, sobretudo espírita, lembremos que não são poucos os casos de pessoas desenganadas pela medicina, oficial e tradicional, que procuram outras alternativas e logram curas espetaculares, seja através da imposição das mãos, da fé, do magnetismo, da homeopatia ou mesmo em decorrência de mudanças comportamentais.

Criaturas outras, com quadros clínicos de doenças incuráveis, uma vez posto o magnetismo em atividade, também conseguem reverter as perspectivas de uma fatalidade, com efetivas melhoras, propiciando horizontes de otimismo para suas almas. Não cabe ao homem, em circunstância alguma, ou sob qualquer pretexto, o direito de escolher e deliberar sobre a vida ou a morte de seu próximo, e a eutanásia ou mesmo a ortotanásia, essa falsa piedade, atrapalha a terapêutica divina, nos processos redentores da reabilitação.

Nós, espíritas, sabemos que a agonia prolongada pode ter finalidade preciosa para a alma e a moléstia incurável pode ser, em verdade, um bem. Nem sempre conhecemos as reflexões que o Espírito pode fazer nas convulsões da dor física e os tormentos que lhe podem ser poupados graças a um relâmpago de arrependimento.

Dessa forma, entendamos e respeitemos a dor, como instrutora das almas e, sem vacilações ou indagações descabidas, amparemos quantos lhes experimentam a presença constrangedora e educativa, lembrando sempre que a nós compete, tão-somente, o dever de servir, porquanto a Justiça, em última instância, pertence a Deus, que distribui conosco o alívio e a aflição, a enfermidade, a vida e a morte, no momento oportuno. O verdadeiro cristão porta-se, sempre, em favor da manutenção da vida e com respeito aos desígnios de Deus, buscando não só minorar os sofrimentos do próximo - sem eutanásias/ortotanásias, claro! - Mas também confiar na justiça e na bondade divina, até porque nos Estatutos de Deus não há espaço para injustiças.

Referência:


[1] Disponível em http://exame.abril.com.br/mundo/contra-vontade-dos-pais-juiz-britanico-autoriza-morte-de-bebe/,
Acessado em 11 de abril de 2017

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Um Estatuto, uma cláusula , uma carta , uma solicitação (Vladimir Alexei)

ESTATUTO
da  Federação Espírita Brasileira 

(Aprovado pela Assembléia Geral Extraordinária em 23 de março de 1991, com as alterações aprovadas pela Assembléia Geral Extraordinária de 3 de julho de 1999.)


CAPÍTULO I 
Do nome, objeto e sede da Sociedade 
Art. 1º A Federação Espírita Brasileira, fundada a 2 janeiro de 1884, na cidade do Rio de Janeiro, é uma sociedade civil religiosa, educacional, cultural e filantrópica com personalidade jurídica e que tem por objeto e fins: 
 I – O estudo, a prática e a difusão do Espiritismo em todos os seus aspectos, com base nas obras da Codificação Allan Kardec e no Evangelho de Nosso Senhor Jesus-Cristo; 
II – A prática da caridade espiritual, moral e material por todos os meios ao seu alcance, dentro dos princípios da Doutrina Espírita; 
III – A união solidária das sociedades espíritas do Brasil e a unificação do movimento espírita brasileiro, bem como o seu relacionamento com o movimento espírita internacional. 
Parágrafo único – Além das obras básicas a que se refere o inciso I, o estudo e a difusão compreenderão, também, a obra de J.-B. Roustaing e outras subsidiárias e complementares da Doutrina Espírita.


Allan Kardec

Uma solicitação fraternal
Vladimir Alexei






Como espírita, iniciei minhas atividades quando subi, pela primeira vez, a escadaria da Sede Histórica da FEB, na Av. Passos, no 30, no Rio de Janeiro, onde residi entre os anos de 1990 e 1995. Conheci o gentleman Juvanir Borges. Tenho dois momentos no movimento espírita, atualmente. O primeiro é na exposição doutrinária, fazendo reflexões para espíritas e não espíritas. O segundo ocorre quando escrevemos alguns artigos com críticas ao movimento espírita.

Por ter estudado um pouco, ao longo desse breve tempo, a história do Movimento Espírita brasileiro, e por ter feito parte do movimento de Unificação, recorro à sua atenção para alguns apontamentos que, poderiam suscitar reflexões e, um possível diálogo. Faço-o, a partir da minha apresentação, pois não ambiciono nada na Federação Espírita Brasileira. Não tenho interesse em absolutamente nada da Federação Espírita Brasileira, a não ser que ela exerça o papel para o qual foi criada: ser uma Federação.

Alguns comentários, a partir daqui, serão de ordem prática, com o objetivo de entender melhor o momento que passamos, frente às demandas do movimento espírita.

A primeira delas é que, a situação financeira da Federação já foi melhor do que o momento de crise porque passa o Brasil. Consequentemente, a Federação, mesmo que ainda possua fontes reais de receita, não dispõe de tanto recurso assim para, por exemplo, reeditar Os Quatro Evangelhos de Roustaing. Além de ser polêmico, não traz benefícios práticos aos cofres da Federação, o que seria financeiramente ruim. Por favor, entendo que, nem sempre as produções trazem resultados financeiros e que há um papel cultural, social e doutrinário em se propagar obras, sacrificando um pouco o caixa, em troca de uma divulgação maior. Válido e aplicável para obras realmente doutrinárias.

Do ponto de vista doutrinário, a reedição se justifica menos ainda pois, em uma gestão que assumiu oficialmente em 2015, e que até o presente momento não apresentou planejamento contendo estratégias de atuação no movimento de Unificação (já se passaram dois anos), não seria com esse trabalho que o senhor Unificaria o Movimento Espírita, carente já da presença da Federação. A última data de planejamento da FEB, em seu site, foi de junho de 2014 (http://www.febnet.org.br/blog/geral/conheca-a-feb/feb-faz-planejamento/).

Entendo que o papel de um Presidente é de articulação política, mais do que de gestão administrativa e financeira. Se puder fornecer as diretrizes políticas e administrativas, melhor ainda. Mas é preciso dar visibilidade ao que está acontecendo na Federação, Presidente. E isso não se faz com ações de comunicação social e marketing. Se faz no corpo a corpo com o movimento espírita brasileiro.

Presidente Godinho, juridicamente, é possível derribar a cláusula pétrea referente ao trabalho de Roustaing. Isso é fato. O senhor está com a faca e o queijo nas mãos para, como Roustanguista, fazer história e entrar para os anais como aquele Espírita que entendeu, que, para se estudar uma teoria, doutrinária ou não, não é preciso o amparo estatutário e sim da boa vontade daqueles que acreditam em tais teorias.

Que esse assunto (cláusula pétrea), saia das sombras e venha a lume para que todos os espíritas vejam na presente gestão um gesto de profunda transformação. Creio até que, este processo, esteja próximo de sua mesa, de fácil acesso, para que tome uma decisão que coloque o nome da Federação, da atualidade, nos trilhos e preste um serviço relevante ao movimento espírita.

Mas o ponto mais importante, e por isso vem por último, pois é dos mais difíceis, já que a mudança de um estatuto depende única e exclusivamente do senhor, seria abrir um diálogo com o Movimento Espírita brasileiro. Projetos no exterior, nesse momento, não são mais relevantes do que os projetos de sustentação do movimento brasileiro. A FEB está na contramão daquilo que é doutrinário e evangélico, presidente! Primeiro arrumo a casa, depois executo projetos externos! As práticas atuais (que o movimento espírita, em esmagadora maioria, desconhece), demonstram, para quem está de fora, total falta de planejamento ou, laissez-faire, “faço o que quero, quando quero...” e, o pouco que já li a seu respeito, não condiz com sua altivez.

Assim sendo, Presidente, convide lideranças do movimento espírita, mesmo aquelas que se opõe à FEB, mas que sem dúvida alguma, são educadas e podem dialogar construtivamente, para marcar uma nova retomada para o futuro do movimento espírita. Afaste-se daqueles que só sabem “aconselhar” e muito pouco produzem. Oxigene os ares da Federação Espírita Brasileira (pelo menos comece!), levando aqueles que podem contribuir desinteressadamente com a Federação. Renove, Presidente!

Sei que o senhor não me responderá, mas fico feliz em saber que, pelo menos, recebeu essa missiva. Que os Bons Espíritos iluminem seu caminhar, que a Federação seja novamente uma construtora social da mais alta relevância e que o bom combate seja constante, em seu coração, e no de todos que transitam pelos corredores da Federação.

Com votos de paz e alegria, em Jesus, despeço-me, agradecido desde já por sua atenção. (Vladimir Alexei)