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domingo, 15 de janeiro de 2017

Chacotas inconsequentes - Jorge Hessen


Jorge Hessen
jorgehessen@gmail.com
Brasília.DF


Paulo escreveu aos Gálatas: “Não vos enganeis; Deus não se deixa zombar; pois tudo o que o homem semear, isso também ceifará”. [1] Alguns humoristas impiedosos, armados de repertórios controvertidos, costumam debochar das desgraças alheias (bêbados, homossexuais, analfabetos, jagunços, idosos, aleijados etc.), a fim de bancarem os seus estúpidos shows. 

Há dois mil anos Jesus foi ridicularizado. Notemos: Nisso os soldados do governador levaram Jesus ao pretório, e reuniram em torno dele toda a coorte. E, despindo-o, vestiram-lhe um manto escarlate; e tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e na mão direita uma cana, e ajoelhando-se diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, rei dos judeus! E, cuspindo nele, tiraram-lhe a cana, e davam-lhe com ela na cabeça. Depois de o terem escarnecido, despiram-lhe o manto, puseram-lhe as suas vestes, e levaram-no para ser crucificado. [2]

Ridicularizar, segundo o dicionarista, é aquele que tira "onda" zomba; que vive caçoando, causando riso com a intenção de debochar de algo ou de alguém; fazendo chacota com palavras, expondo-a ao ridículo. Que trata alguém com escárnio. Que exprime, demonstra e utiliza sarcasmo. Procurar tornar ridículo por meio de gestos, atitudes ou palavras irônicas. 

Os motivos podem ser muitos, dentre eles: Por diferenças raciais, doenças deformantes, forma de ser (personalidade), características regionais. Na verdade muitas pessoas são ridicularizadas pelo fato de não estarem enquadradas no atual perfil psicossocial, que parece eleger as pessoas "normais" e as "estranhas" que são alvos de zombarias cruéis.

Cientistas da Universidade de Leiden (Holanda) concluíram que rir dos problemas dos outros – um hábito muito comum entre os seres humanos – é sinal de baixa autoestima. Isso significa que, cada vez que alguém faz chacota ao ver alguma pessoa em desventura está mostrando que tem sérios problemas de auto aceitação.

Os estudos foram liderados pelo professor Wilco W van Djik e analisaram 70 pessoas. A grande maioria delas confessou ficar ditosa quando sabe que outra pessoa cometeu alguns deslizes ou se machucou. Van Djik afirmou para a revista LiveScience que “pessoas com menor autoestima se sentem melhor quando observam a desgraça alheia”. E esse sentimento (de gostar de ver os outros sofrendo) tem um nome: Schadenfreude. [3]

Raciocinando, dialogando ou trabalhando, “a força de nossas ideias, palavras e atos alcança, de momento, um potencial tantas vezes maior quantas sejam as pessoas encarnadas ou não que concordem conosco, potencial esse que tende a aumentar indefinidamente, impondo-nos, de retorno, as consequências de nossas próprias iniciativas”. [4]

Nos anos 1940, Chico começava a ser conhecido nacionalmente, e também era processado pela família do jornalista Humberto de Campos , que exigia na justiça o pagamento dos direitos autorais pela venda dos livros psicografados. Nessa mesma época, desembarcou em Pedro Leopoldo, David Nasser[5] e Jean Manzon, respectivamente, repórter e fotógrafo da revista O Cruzeiro, a revista de maior circulação no Brasil nessa época. O objetivo era entrevistar e achincalhar Chico Xavier.

A dupla expôs ao extremo ridículo a vida de Chico, justamente no momento mais crítico de sua vida, faltavam apenas alguns dias para que o juiz proferisse a sentença no caso Humberto de Campos. Com o título de “Chico Xavier, detetive do além” e dez páginas, a reportagem foi publicada na revista no dia 12 de agosto de 1944. Em meio a elogios, David aproveitava também para colocar em contradição os dons mediúnicos de Chico, sua ingenuidade em alguns momentos e sua esperteza em outros. 

Chico ficou indignado ao ler a reportagem. Ao ver sua vida e sua imagem (dentro de uma banheira) sendo manipulada daquela maneira, teve a certeza de que seria condenado. Chico chorava desesperadamente, não acreditava que havia sido enganado, e se perguntava porque Emmanuel não o alertou, se assim tivesse feito toda aquela humilhação não estaria acontecendo. 

Em meio à crise de choro Emmanuel surgiu no quarto e perguntou:

- Por que você chora?

- Por quê? É muita humilhação, uma vergonha, um vexame.

E Emmanuel respondeu:

- Chico você tem que agradecer. Jesus foi para a cruz, você foi só para “O Cruzeiro”. [6]

Toda a brecha de sombra em nossa personalidade retrata a sombra maior. Qual o pequenino foco infeccioso que, abandonado a si mesmo, pode converter-se dentro de algumas horas no bolo pestífero de imensas proporções, o deboche, a zombaria, “a maledicência pode precipitar-nos no vício, tanto quanto a cólera sistemática nos arrasta, muita vez, aos labirintos da loucura ou às trevas do crime”. [7]

Em suma, se zombarem de nós, sigamos o sábio conselho de Emmanuel - façamos do limão uma limonada e prossigamos em paz.




Referências bibliográficas:

[1]Gálatas 6:7

[2] Mateus, 27: 27-31

[3] A palavra deriva do alemão Schaden “dano, prejuízo” e Freude “alegria, prazer”.é um empréstimo linguístico da língua alemã também usado em outras línguas do Ocidente para designar o sentimento de alegria ou satisfação perante o dano ou infortúnio de um terceiro.

[4] Xavier, Francisco Cândido. Pensamento e Vida, cap. 8, ditado pelo Espírito Emmanuel, RJ: Ed. FEB, 1977

[5] Na década de 1970, David Nasser, em uma reportagem publicada no jornal carioca O Dia, se mostrou arrependido ao definir Chico Xavier como “o maior remorso da minha vida”.

[6] http://www.acaminhodaluz.net.br/v2/momentos-com-chico-xavier/103-chico-na-revista-o-cruzeiro.html

[7] Idem

CONGRESSOS. A FACE ESQUERDA



Luiz Carlos Formiga


Se alguém te ferir na face direita, oferece-lhe a outra.

Jesus liberou a legítima defesa, mas não a vingança. Orientou-nos a vencer o amor próprio, diante do interesse contrariado.

Há os que acreditam que os congressos não contribuem para o desenvolvimento da Doutrina Espírita. No atual movimento espírita qualquer assunto vira congresso. São dezenas a cada ano, muito bem estruturados econômica e turisticamente, enquanto a miséria cresce do lado de fora. Não conheço uma única tese que tenha merecido atenção mais duradoura dos espíritas de maior ou de menor discernimento. (1)

As críticas gerais se prendem aos hotéis de luxo; a programações com temas banais e a suspeita de bom retorno financeiro, apenas para os organizadores. Fala-se também em “fogueira de vaidades”.

Qualquer congresso apresenta pontos positivos e negativos.

O espírito Emmanuel lembra que não convém concentrar em organizações mutáveis do plano carnal todas as nossas esperanças e aspirações. A Ciência que nos atende às reclamações, nos minutos que passam, não é a mesma que nos servia, nas horas que se foram, e a do futuro será muito diversa daquela que nos auxilia no presente. Xavier, F. C., livro Fonte Viva. Emmanuel. FEB. Cap. 148.

Um exemplo do que foi dito acima pode ser encontrado nos dias de hoje, entre os profissionais de saúde na Europa, que estão refletindo sobre uma doença que acomete principalmente crianças, até os 05 anos. (2).

Em 2001 relatamos um caso da mesma doença numa advogada, adulta e vacinada. Falhamos no diagnóstico clínico. Somente após a identificação bacteriana, o tratamento específico foi iniciado, obtendo-se boa resposta clínica. Escrevemos um artigo sobre o fato e enviamos carta a uma revista técnica alertando para a vacinação de adultos. (3)

Em congressos, discutimos resultados inusitados. Este foi o caso do isolamento de amostra diferente a partir de uma endocardite. A menina faleceu, embora fosse ministrada antitoxina e penicilina. (4)

Quando são lançadas dúvidas em relação aos nossos resultados de pesquisa, sentimos constrangimento, que aumentará se a nossa “legítima defesa” não convencer. Precisamos estar abertos à crítica, aprender a respeitar opinião contrária, honorificar as qualidades do adversário e verificar com quem está a razão. Congressos oferecem bons treinamentos. Já vi muitos saírem arrasados, quando não há delicadeza.

Quando num congresso, no exterior, a equipe apresentou a diferença encontrada no agente etiológico isolado no Brasil, uma pesquisadora questionou o diagnóstico laboratorial. Era a única opinião divergente, mas deixou um “espinho na carne”.

De volta ao Rio de Janeiro, a equipe ampliou os experimentos, como era natural. Ouvi de um deles: “estamos certos”. Acabara de extrair o “espinho”. A crítica, aparentemente negativa foi um ponto positivo. O laboratório carioca acabara de ganhar créditos, diante dos pares no exterior. (5)

Positivo foi um relato feito no Congresso Espírita de 1900. O indivíduo magnetizado no mais alto grau referiu-se à sua vida no Plano Espiritual e relatou a sua morte na última encarnação. Continuamente estimulado, chegou até quatro encarnações. A mais antiga fora uma existência inteiramente selvagem. A cada existência, as feições mudava de expressão. Para ser restituído a seu estado habitual, foi gradualmente reconduzido até a atual encarnação e despertado em seguida.

Num congresso espírita, a discussão sobre a regressão de memória de Luciano dos Anjos (Camille Desmoulins) seria ponto positivo, até para o Prof. Dr. Ian Stevenson.

Também não temos dúvidas que, num congresso de diálogo franco e aberto, relatos como os dos doutores P. C. Fructuoso (6) e J. C. de Sá Roriz (7) seriam positivos, apesar da resistência da “Ética dos Semelhantes”. Geralmente, se apresentam como justificativa para a negatividade, o argumento que a pesquisa não foi desenvolvida numa instituição espírita, com médiuns e pesquisadores espíritas.

Comecei a participar de congressos na década de 1960. (8)

Hoje já não temos a mesma resistência, diante dos “pontos negativos”.

Num congresso espírita, devemos pensar no que ocorre, ao mesmo tempo, no plano espiritual. A presença de médiuns com credibilidade é fundamental. Como verificar se o relato é confiável? Confesso que sou admirador de Yvonne Pereira.

Vejamos o que nos diz o espírito Yvonne, através da mensagem psicográfica recebida por Marta A. de Moura, na F.E.B., em 22 de abril de 2010, no encerramento do Terceiro Congresso Espírita Brasileiro. (9)

Yvonne, espírito, supera expectativas ao relatar a localização, no plano espiritual, de uma comunidade de suicidas vivendo em situação precária. Diz que neste local, incrustada em espaço de difícil acesso, existia uma escola, cujos dirigentes se especializaram em indução ao suicídio.

Um planejamento foi feito. Depois da visita de um mensageiro de elevada região, os professores da escola aceitaram o convite para participar do encerramento do Terceiro Congresso Espírita.

No encerramento a luz se fez pura e cristalina, jorrando do Alto. O problema foi solucionado, quando os espíritos equivocados observaram que os congressistas encarnados e desencarnados cantavam uma música em prol da paz. Ver a mensagem completa em 9.

Médiuns devem ter credibilidade. Chico Xavier preveniu-se contra aproveitadores. Deixou um código de verificação, para depois de sua morte. Mesmo assim alguns se aventuraram. Hoje, são muitos os livros derramados nas prateleiras do movimento. Necessitam de análise crítica. Sobrou para o Prof. Dr. José Passini! Alguém competente precisa fazer o trabalho heroico e pesado. (10)

No meu caso, pesquisei um “detector de mentiras”, mas para micróbios enganadores. Divulgamos os resultados numa revista de grande circulação, encontrada em banca de jornal, mas que tem origem na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. (11)

Voltemos aos dias de hoje e aos problemas causados pelo mundo invisível dos micróbios. Em 10 de março de 2016, uma criança foi internada num hospital universitário da Antuérpia, na Bélgica, com dor de garganta e pseudomembrana. O diagnóstico médico presuntivo foi difteria, o "anjo estrangulador das crianças".

A menina de 03 anos, família da Chechênia, não estava vacinada e o soro antidiftérico não estava disponível na Bélgica.

O Centro de Referência só confirmou o diagnóstico clínico depois de cinco dias.

Em 16 de março a antitoxina foi enviada, depois do pedido de ajuda ao Centro Europeu de Prevenção e Controle das Doenças (ECDC) em Estocolmo. Com um drone (13, 14) chegaria mais rápido.

Tarde demais! A menina morreu no dia seguinte.

Em 2015, uma criança em Espanha morreu em circunstâncias semelhantes, e as taxas de vacinação em declínio, em alguns países, estão trazendo a expectativa do surgimento de mais casos. Enquanto isso, a antitoxina, produzida em cavalos, é escassa no mundo inteiro, embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) a inclua em uma lista de “medicamentos essenciais”.

Após a vacinação em massa houve acentuada redução do número de doentes, o que levou à diminuição da fabricação do soro antidiftérico. Hoje o mercado é muito pequeno para tornar a produção rentável. Isso ocorre também nos Estados Unidos.

A Bulgária é o único produtor europeu, mas não há estoque que possa compartilhar. Para aumentar a produção se pensa em produzir o medicamento em cultura de células, o que inclusive eliminaria um efeito colateral, a “doença do soro”, mas quem patrocinaria esse tipo de projeto? Que empresa se interessaria?

Essas duas crianças que morreram na Europa, nos últimos dois anos, estimularam a busca de novas fontes de produção de antitoxina. Ainda hoje, se usam cavalos “como fábricas vivas”. Essas crianças poderiam ter sido salvas se tivessem obtido a tempo o soro neutralizador da exotoxina bacteriana. Para isso também pode contribuir um diagnóstico laboratorial mais rápido. (2) Principalmente quando estamos diante de um caso “atípico” e de uma amostra diferente, que pode fazer pensar em diagnóstico laboratorial microbiológico errado.

Vamos permanecer vigilantes. Recentemente tivemos um surto no Brasil (Maranhão), onde duas crianças imunizadas morreram. (12) Imprescindível cultivar a fé e a esperança. Encontraremos soluções.

Espíritos inteligentes e mais felizes estão reencarnando em maior número, (13) para impulsionar nossa evolução, no inicio deste terceiro milênio. (14)

Referências


3. Diphtheria in a vaccinated adult in RJ. RJ., Brazil. Brazilian Journal of Microbiology 2001; 32: 236–239.
4. AL Mattos-Guaraldi , LCD Formiga. Bacteriological properties of a sucrose fermenting Corynebacterium diphtheriae strain isolated from a case of endocarditis. Current Microbiology 1998; 37: 156–158.
5. Hirata Junior R, Pacheco LG, Soares SC, Santos LS, Moreira LO, Sabbadini PS, Santos CS, Miyoshi A, Azevedo VA, Mattos-Guaraldi AL. Similarity of rpoB gene sequences of sucrose-fermenting and non-fermenting Corynebacterium diphtheriae strains. Antonie van Leeuwenhoek, 99: 733-737, 2011. http://link.springer.com/article/10.1007/s10482-010-9519-0
11. Formiga, L.C.D. Um detector de mentiras para micróbios. Ciência Hoje, 2 (8): 14, 1983.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Sentimento e moralidade precedem à intelectualidade ( Jorge Hessen )


Jorge Hessen
jorgehessen@gmail.com
Brasília.DF


Será que há uma tarefa especializada da inteligência no orbe terrestre? Emmanuel ilustra que “assim como numerosos Espíritos recebem a provação da fortuna, do poder transitório e da autoridade, há os que recebem a incumbência sagrada, em lutas expiatórias ou em missões santificantes, de desenvolverem a boa tarefa da inteligência em proveito real da coletividade. Todavia, assim como o dinheiro e a posição de realce são ambientes de luta, onde todo êxito espiritual se torna mais porfiado e difícil, o destaque intelectual, muitas vezes, obscurece no mundo a visão do Espírito encarnado, conduzindo-o à vaidade injustificável, onde as intenções mais puras ficam aniquiladas. [1]

Há aqueles que possuem o chamado QI elevado, que entretanto desconhecem os cruciais problemas sociais. James Flynn, professor da Universidade de Otago, Nova Zelândia, pesquisador no campo de investigações sobre a inteligência, afirma que os resultados médios em testes de inteligência vêm aumentando em todas as raças humanas. Todavia, em que pese o enorme potencial intelectual, muitos “inteligentes” não têm noção da história complexa do mundo que os cerca. Em seu mais novo livro, Does Your Family Make You Smart?, Flynn discute as maneiras como o pensamento humano mudou ao longo dos tempos, incluindo um aumento misterioso no quociente de inteligência (QI).

Alguns pesquisadores argumentam que “aumento misterioso no quociente de inteligência” reflete a completa educação atual sob a crescente dependência da linguagem e inteligência tecnológica. Tempos atrás, lembram, nossos bisavós padeceram com máquinas de escrever, e nossos pais com o primeiro videocassete, mas as crianças atuais aprendem a usar com extrema facilidade um tablet ou um smartphone ainda em tenra idade. Com isso, a atual geração talvez pense de forma rápida e abstrata, o que pode resultar em aumentos médios de percentuais no QI, mas esse aumento não significa perspectiva de melhora social.

Nesse debate, cientistas se apresentam convictos de que, independentemente dos antecedentes familiares, as pessoas têm o poder de cuidar do próprio desenvolvimento intelectual e moral, pois os estudos mostram que circunstâncias tecnológicas atuais influenciam o QI no presente mais do que a tradicional e histórica experiência educativa da família. Dizem! Porém, James Flynn não concorda com isso. Seguimos o pensamento de Flynn, pois cremos que a família é o fator principal para o desenvolvimento da moralidade e da inteligência.

“Temos no instituto familiar uma organização de origem divina, em cujo seio encontramos os instrumentos necessários ao nosso próprio aprimoramento para a edificação do Mundo Melhor”. [2] Destacando aqui que “de todos os institutos sociais e educacionais existentes na Terra, a família é o mais importante, do ponto de vista dos alicerces morais que regem a vida”. [3] Porquanto, no sagrado instituto da família há a base mais elevada para os métodos de educação, das noções religiosas, com a exemplificação dos mais altos deveres da vida.

Considerando que o colégio familiar tem suas origens sagradas na esfera espiritual, preponderam nesse instituto divino os elos do amor, fundidos nas experiências de outras eras. Obviamente os valores intelectivos representam a soma de muitas experiências, em várias vidas do Espírito, no plano material. Uma pessoa de QI elevado significa um imenso acervo de lutas planetárias. Atingida essa posição, se o homem guarda consigo uma expressão idêntica de progresso espiritual, pelo sentimento, então estará apto a elevar-se a novas esferas do Infinito, para a conquista de sua perfeição. [4]

Lamentavelmente, a inteligência humana sem desenvolvimento moral e sentimental tem sido arma letal, porque nesse desequilíbrio do sentimento e da razão é que repousa atualmente a dolorosa realidade do mundo de guerras. O grande erro das criaturas humanas foi valorizar historicamente apenas o intelecto, olvidando os valores legítimos da moralidade e do coração nos caminhos da vida.

Referências bibliográficas: 

[1] Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, pergunta 208, RJ: Ed FEB, 2000

[2] Xavier, Francisco Cândido. Vida e Sexo, cap. 2, RJ: Ed FEB, 2006

[3] Idem cap. 17

[4] Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, pergunta 42, RJ: Ed FEB, 2000

sábado, 7 de janeiro de 2017

DIFERENTES, MAS, SOBRETUDO, IGUAIS.

Luiz Carlos Formiga


A preocupação pelas questões morais está inteiramente para ser criada.
 são deixadas na poeira acumulada pelos séculos.
 J.J. Rousseau. O Livro dos Médiuns.

O Professor Dr. Carlos T. Rizzini, Conselho Nacional de Pesquisas, CNPq e Academia Brasileira de Ciências, autor do livro Evolução para o Terceiro Milênio, (1) explica que os valores morais não têm qualquer significação para o mundo físico. Quando se examinam as propriedades da matéria nenhuma questão moral entra em cena. Uma droga poderá ser muito útil ou maléfica, conforme o uso que dela se faça; não é nem boa nem má, em si mesma. Sendo o homem apenas matéria, a nossa ciência é ciência da matéria, assim no mundo científico atual é absolutamente natural que a ética não seja considerada.
Na universidade, percebemos que estamos num “campo minado”. São professores que leram seus filósofos, escreveram tratados, fizeram discursos belíssimos, do ponto de vista literário e tanto consolidaram suas construções, que acabaram acreditando nelas. São estes que constituem o diálogo mais difícil num Núcleo Espírita Universitário. (2)
Allan Kardec (LE, 932) perguntou: qual a causa do mal imperar no mundo?
Resposta -  “porque os bons são tímidos”. Seria um eufemismo?
Espíritos adversários da evolução planetária, para perverter e transfigurar os valores da sociedade elaboraram metas prioritárias. Muitas almas são aliciadas, sem que percebam. Entre elas encontramos as que se dizem orientadas por Jesus, Guia e Modelo. Um NEU tem encontro marcado com a indiferença, terá muito trabalho e treinará a resiliência. 
O investimento dos seus opositores prospera porque espíritas iludidos promovem as suas causas, emprestando-lhes  um ar de legitimidade, o que nunca teriam se fossem identificados como cultores da ideologia materialista.
Movimentos sociais são utilizados para fazer pressões nos governos locais com intenção em mudanças de leis. Procuram subverter a ordem pública com protestos e convulsões sociais, reivindicando mudanças "para melhor" atender  aos "anseios" do povo.
Tudo aquilo que não conseguiram no passado, através das armas e violência, hoje estão conseguindo por meios pacíficos, transfigurando cenários e valores de dentro pra fora.
Aparentemente, parece não existir hoje nenhuma oposição capacitada com recursos intelectuais e financeiros para resistir ao planejamento de dominação.
Eles nos dão aulas de organização e funcionamento. Apenas algumas de suas metas nos dão uma ideia. Vamos citar algumas “maquiavélicas”.
Desacreditar a Família como uma instituição. Encorajar e promiscuidade e o divórcio fácil. Enfatizar a necessidade de criar os filhos longe da negativa influência dos pais. Desacreditar a espiritualidade, a religiosidade, enfatizando que não há necessidade de usar “muleta religiosa”.
 Eliminar a prece nas escolas, universidades, alegando que ela viola o princípio da "separação entre Igreja e Estado". Tomar o controle das escolas, universidades. Usá-las como meio de transmissão ideológica. Suavizar o currículo. Tomar o controle das associações de professores. Usar como camuflagem uma variedade de rótulos como “Forças Democráticas”, “Progressistas”. Quebrar padrões culturais de moralidade, promovendo a pornografia em livros, revistas, filmes e televisão. Infiltrar-se na imprensa. Tomar o controle de postos-chaves no rádio, TV e cinema. Eliminar todas as leis que regem a obscenidade chamando-as de "censura", e uma violação da liberdade de expressão e de imprensa. Promover a erotização, apresentando diversos “tons de cinza” como atividade normal, natural e saudável.
Os bons são tão “tímidos” que existem poucos Núcleos Espíritas nas universidades.
Para o espírita, depois da colação de grau tudo fica menos perigoso. Irão agora pertencer a uma entidade definida pela igualdade de interesses (médicos, psicólogos, advogados e outros), justificando-se a associação e também os mecanismos de exclusão (voz sem voto, por exemplo).
Para os que permanecem na universidade, funcionários e professores, fica a provação/expiação de espanar a poeira dos séculos depositada na Ética da Fraternidade, aquela que nos permite conviver em coexistência pacifica com os diferentes.
Pensando no enfoque prático, fomos ouvir Bezerra, numa mensagem de 1982, “Fraternidade em Jesus”.
O setor de conscientização a que fomos chamados pelos supervisores da construção do Amanha Melhor, sem dúvida, não é por si e em si uma instituição nos moldes humanos, quanto à organização e funcionamento. Os Mensageiros do Divino Mestre não nos induziram a criar um órgão de caráter elitista, com obrigações convencionais.  Somos convidados a formar um núcleo, no qual se destaque o ensinamento do Mestre Inesquecível. Aliás, isso é compreensível na fundamentação da Fraternidade.
Conhecimento, trabalho e conscientização representam as três fases de uma formação única, sem vinculações com determinados esquemas de serviços.
Anotemos, sem qualquer ideia de confrontação, as primeiras reuniões para que o clarão da Boa Nova se expandisse, exceção feita à Divina Palavra do Monte, à frente da multidão, sempre se efetuou com a presença de poucos. Decididos a efetuar a própria renovação íntima, se farão esteios espontâneos da tarefa que se nos confiou, sem que, ao executá-la, venhamos a nos sentir na condição de obreiros especializados sob uma suposta nomeação dos Altos Escalões da Espiritualidade Superior.
A hora atual, com tantos entretenimentos à margem dos caminhos humanos exercendo sobre as criaturas indesejável fascínio, pede a presença de sementeira e seara. Doemos quanto se nos faça possível nas áreas de vivência e experiência e o Senhor fará o resto (3)
No ano seguinte, Bezerra nos oferece “Itens da Fraternidade em Jesus”. (4) Destacamos ideia-síntese. Cada criatura é um mundo por si, com leis e movimentos próprios, que nem sempre se harmonizam com os nossos, por isso é obrigação clara e simples aceitar os outros tais quais são. Exerçamos paciência sem limites. Atendendo à realidade de que somos psicologicamente diferenciados no campo geral da existência, vamos respeitar sempre as necessidades ou os problemas do próximo. Devemos admitir sem discussão o imperativo da tolerância. O trabalho é nossa escola permanente, de cujos ensinamentos não nos é lícito desertar.
Nasceu o Núcleo Espírita universitário. Como seria a “Carta Náutica”? Dias de temporais. Mares revoltos. Chovia preconceito. Depois, as ideias orientadoras iniciais foram divulgadas em 2001, na Revista Internacional de Espiritismo. (5)
As decisões foram orientadas por princípios éticos, como justiça, reciprocidade, igualdade e respeito pela dignidade do ser humano. Os saberes diversos advindos de pessoas com formações universitárias diferentes foram um estímulo à consciência crítica.
Hoje, em plena epidemia (Polliticum corruptiae), a preocupação pelas questões morais está inteiramente para ser criada. (6) O Brasil conquista o prêmio “Maior Escândalo de Corrupção do Mundo”, com suas “Empresas Campeãs”.
O NEU é embrião-convite. Apelo à vida com fraternidade, amor em ação. Convite à aceitação da diversidade e ao relacionamento pacífico, entre os diferentes.
Nem sempre harmônica, a coexistência pacífica produz o ambiente ecológico favorável ao desenvolvimento do Domínio Cognitivo, Afetivo e da Inteligência Espiritual (QS). A “Ética do Amor, Fraternidade” é uma exigência e um desafio no terceiro milênio.
Depois de criar e liderar um grupo de pesquisas na universidade, (7) observo sua atividade 20 anos depois de estar na inatividade. Continua produzindo artigos científicos e melhores. (8) Afastei-me fisicamente do NEU-UERJ, na mesma época e ele continua “trabalhando e resistindo". De insubstituíveis o cemitério está cheio.
Os grupos de estudos espíritas, que compõem o NEU, podem ser como o de pesquisas. Pequenos, independentes e com diálogo franco e aberto. Enquanto pequenos podem se orientar pela “Ética dos Semelhantes”, mas na assembleia é diferente.
Em “Trabalho, Solidariedade e Tolerância”, do livro “Luz no Caminho”, Emmanuel diz que o trabalho edifica, a segunda aperfeiçoa, mas é a tolerância quem eleva. No entanto, para tolerar-nos, em sentido construtivo, é imprescindível amar. E, conclui: vinculada aos fundamentos divinos, a sublime trilogia de Allan Kardec é plataforma permanente, em nossos círculos doutrinários, constituindo lema substancial que não pode morrer.
O meio ambiente, universidade, influi no espírito. Muitas respostas podem ser colhidas nas ciências jurídicas, no Direito Ambiental. Um meio ambiente ecologicamente equilibrado é imprescindível para a saúde. O Princípio da Sadia Qualidade de Vida é direito fundamental e não pode ser abolido por emenda constitucional.
No deslocamento do Centro de Ciências da Saúde em direção ao Centro de Ciências Jurídicas tentamos ser didáticos num texto resumido sobre “Direito Ambiental”. (9) No texto com enfoque espírita, procuramos pensar na possibilidade de sermos diferentes. Cada grupo deve ter a liberdade de escolher a prática que achar adequada. Por esse motivo o enfoque agora foi o das Ciências Jurídicas. Por outro lado, como “não estamos numa instituição nos moldes humanos, quanto à organização e funcionamento”, é até impertinente enfatizar que, mesmo num grupo constituído numa Faculdade de Direito, a resolução de conflitos jamais poderá passar pela instância judiciária, pois o espaço público de discussão espírita será o Conselho ou Assembleia. Há que se implantar a igualdade em termos de possibilidade de se ser diferente.
Estamos na universidade, num NEU, com sua diversidade. Desta forma, somente uma instituição aberta, protetora da liberdade, criadora de uma ecologia ambiental fraterna sobreviverá.
Questões complexas, transdisciplinares, poderão encontrar bons caminhos, sempre facilitados pela diversidade de enfoques. Abaixo, um exercício suave prático. (10). Avaliar é verbo que indica alto nível de complexidade do domínio cognitivo. Se no caso abaixo existe parentesco do leitor com a gestante, deveremos considerar o domínio afetivo. Se o leitor não é materialista deve abusar da inteligência espiritual.
 Deve-se aceitar o aborto para “salvar a vida” da gestante, HIV positiva, grávida, pelo estupro?
Um profissional ético diria que se encontra diante de uma matéria sem resposta definitiva, no relativo à influência da sorologia positiva no processo gestacional e da própria saúde do feto. Parece não existir ainda nenhum argumento ético, jurídico ou técnico, capaz de fundamentar a interrupção de uma gravidez numa mulher soro-convertida ou já doente de AIDS, a não ser que suas condições de saúde sejam agravadas pela gestação, que cessada a gravidez cesse o perigo e que não haja outro meio de salvar-lhe a vida.
A Ética da Tolerância/Amor/Fraternidade jamais poderia ser instituída por decreto. De nada adiantaria, como no binômio ensino-pesquisa que é indissociável, não por causa da lei, mas pela visão de mundo, de docentes pesquisadores. (11)
A Ética da Tolerância é questão de inteligência espiritual, de educação espiritual, conscientização e não pode ser regida por um modelo autoritário de fidelidade ideológica.
Somos iguais, mas diferentes e, diferentes, mas, sobretudo, iguais. (12)

Referências na WEB




quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Sejamos nós a mudança que nós queremos ver no mundo (Jorge Hessen)



Jorge Hessen
jorgehessen@gmail.com
Brasília.DF

Após ganhar um Emmy de melhor série de não ficção, a série O Planeta em Perigo, série documental da Nat Geo , retorna com nova temporada. Desta vez, astros como o apresentador David Letterman, os atores Don Cheadle, Arnold Schwarzenegger (que também é um dos produtores do programa), Joshua Jackson, America Ferrara, e a modelo Gisele Bündchen, participam de reportagens nas quais apresentam como diferentes partes do mundo estão sofrendo com mudanças climáticas. [1]

No terceiro episódio, por exemplo, Thomas Friedman, repórter especialista em meio ambiente do The New York Times, vai para a Nigéria e o Senegal conhecer os ‘refugiados climáticos’, pessoas que estão saindo de onde moram pelas temperaturas extremas. “Falamos muito sobre os refugiados políticos, mas cerca de seis milhões de africanos terão que deixar seus países de origem porque o solo deles, que antes era fértil, está se transformando em areia por conta da desertificação”, explica Gelber. “Não há dúvida de que as pessoas que menos contribuem para mudanças climáticas são as mais afetadas por elas.”[2]

A O Planeta em Perigo ganha uma importância ainda maior no contexto político atual dos Estados Unidos: o presidente eleito, Donald Trump, não acredita na ciência por trás das mudanças climáticas. Em diversas ocasiões, Trump afirmou que o conceito de aquecimento global foi criado pelos chineses para deixar a produção industrial dos Estados Unidos menos competitiva.

Pesquisas indicam que a “mudança climática tem matado cerca de 315 mil pessoas por ano, de fome, de doenças ou de desastres naturais, e o número deve subir para 500 mil, até 2030”.[3] Quase 25% da população mundial estão ameaçados pelas inundações, em consequência do degelo do Ártico, segundo um estudo publicado há 8 anos, pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF). À medida que a extensão do gelo diminui, e que a superfície dos oceanos aumenta, a quantidade de energia solar absorvida, também, aumenta.

Urge que se crie uma mentalidade crítica, que permita estabelecer novos comportamentos com foco na sustentabilidade da vida humana. A sociedade deve formatar novos modelos de convivência, lastreados na fraternidade e no amor. A falta de percepção, da interdependência e complementaridade, entre os indivíduos, gera, cada vez mais intensamente, o desequilíbrio da natureza. O cientista Stephen Hawking, em seu livro "O Universo numa Casca de Noz", expõe, de forma curiosa, que: "Uma borboleta batendo as asas em Tóquio pode causar chuva no Central Park de Nova Iorque”. [4]Hawking explica, que "não é o bater das asas, pura e simplesmente, que gerará a chuva, mas a influência deste pequeno movimento sobre outros eventos em outros lugares é que pode levar, por fim, a influenciar o clima.” [5]

Desde o início da revolução industrial, em 1750, os níveis de dióxido de carbono (CO2) aumentaram mais de 30%, e os níveis de metano cresceram mais de 140%. A concentração atual de CO2 na atmosfera é a maior registrada nos últimos 800 mil anos. Quais serão as consequências disso? A escala do impacto pode levar à escassez de água potável, trazer mudanças grandes nas condições para a produção de alimentos e aumentar o número de mortes por decorrência de ondas de calor e secas.

As nações, frequentemente, lutam para ter ou manter o controle de matérias primas, suprimento de energia, terras, bacias fluviais, passagens marítimas e outros recursos ambientais básicos. "Esses conflitos tendem a aumentar à medida que os recursos escasseiam e aumenta a competição por eles". [6] Precisamos nos adaptar ao meio como os demais entes vivos neste momento.

Realmente, a consciência de proteção ambiental cresce com o nosso desenvolvimento intelectual e moral. Os recursos “renováveis” que se consomem e o impacto sobre o meio ambiente não podem ser relegados a questões de menor importância, principalmente levando-se em consideração a utilização da água potável, cuja posse no futuro pode ser o motivo mais explícito de confronto bélico planetário.

"A Natureza é sempre o livro divino, onde a mão de Deus escreveu a história de sua sabedoria, livro da vida que constitui a escola de progresso espiritual do homem evoluindo constantemente com o esforço e a dedicação de seus discípulos". [7]

A vida no planeta depende da convivência pacífica entre o homem e a Natureza. E nós espíritas, o que fizemos, ou o que pretendemos fazer? Mahatma Gandhi afirmou certa vez que toda bela mensagem do Cristianismo poderia ser resumida no Sermão da Montanha, que nos serve de exemplo quando diz: sejamos nós a mudança que nós queremos ver no mundo.

Referências:

[1]Disponível em http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2016/11/pessoas-que-menos-contribuem-para-mudancas-climaticas-sao-mais-afetadas-por-elas.html acesso em 26/12/2016
[2] Idem
[3]Trecho é encontrado na página 325 do relatório BRUNDTLAND, de 1988, da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, no livro "Nosso Futuro Comum"
[4]Cf. Instituto Goddard de Estudos Espaciais, da Nasa-EUA
[5]Texto de Marcos Tadao Mendes Murassawa. Aquecimento Global - Ficção x Realidade acessado em 01-01-08
[6]Trecho é encontrado na página 325 do relatório BRUNDTLAND, de 1988, da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, no livro "Nosso Futuro Comum"
[7]Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001, questão 121





segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Desarticulações emocionais


 
Jane Maiolo






“Quem és tu senhor?”[1]

Entre os anos  750 e 730 a.C, aproximadamente, Isaías, considerado pelos pais da igreja, o maior de todos os profetas, desponta com as suas divinas previsões. É Isaias quem primeiramente antevê a vinda D’aquele que iria alterar a trajetória  e a cronologia da histórica humana,  o Cristo.
Anuncia o profeta: "Portanto o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel." [2]
Zacarias registra: "Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que vem a ti o teu rei; ele é justo e traz a salvação; ele é humilde e vem montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de jumenta." [3]
Miqueias anota: "Mas tu, Belém Efrata, posto que pequena para estar entre os milhares de Judá, de ti é que me sairá aquele que há de reinar em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade." [4]
Emmanuel, orientador espiritual de Francisco Candido Xavier, no livro O Consolador , questão 276 , elucida que “nos textos sagrados das fontes divinas do Cristianismo, as previsões e predições se efetuaram sob a ação direta do Senhor, pois só Ele poderia conhecer bastante os corações, as fraquezas e as necessidades dos seus rebeldes tutelados, para sondar com precisão as estradas do futuro, sob a misericórdia e a sabedoria de Deus.”[5]
Há 750 a.C. era anunciada a vinda do Cristo. Há dois mil anos o Governador  espiritual do orbe , sob os auspícios do Pai , nasce cumprindo toda a  programação elaborada por Ele mesmo a fim de  lecionar o amor incondicional aos homens terrenos.
A humanidade se inquieta.Desconjunta-se.
A criatura humana sempre admitiu, concebeu e desejou a existência de um ser superior , dotado de poderes que pudesse livrá-la das teias do mal e trazer um mundo vindouro.
O homem do século XXI é o mesmo ser das mais remotas civilizações apenas com milênios de experiências acumuladas no capítulo do progresso intelectual, moral e material. Ora protagonista de experiências que o elevam, que o transformam , que o educam, ora protagonista ou coadjuvante de cenas sofríveis , perturbadoras e desarticuladoras.
As desarticulações emocionais fazem parte do processo de crescimento socio-psíquico e emocional do homem. Nossos estados íntimos alteram-se ao ritmo dos nosso humores. Nessas polivalências emotivas somos capazes de arriscar a própria vida em favor de alguém ou alguma causa, para logo em seguida ingressarmos ao estado de intranquilidade sintonizando-nos com o mal. A coragem e a covardia são estados súbitos da alma.
“Quem  és tu senhor?” –interrogaria Saulo de Tarso há dois mil anos , ele um destacado  rabino ,vanguardeiro  da lei, dos escritos e dos profetas , foi surpreendido com o fenômeno da luminescência naquele dia de sol abrasador nos acessos  que conduziam a Damasco.
“Tú es o Filho do Deus Vivo”- exclamaria Pedro. O pescador que conviveu com o mestre por três breves anos.
Coragem e covardia. Devotamento e receio. Entusiasmo e abatimento.
Quem és tu senhor?
Ainda não conseguimos compreender quem é esse Ser que nos serve de modelo e guia [6] que não nos pede nada e nos ensina tudo.Que fala sem palavras e indica sem constranger.
Quem és tu senhor?
Passam-se os milênios e não somos capazes de responder essa indagação. Entretanto tal qual o senador Públio Lentulus ainda clamamos: “Não sei compreender a tua cruz e ainda não sei aceitar a tua humildade dentro da minha sinceridade de homem, mas, se podes ver a enormidade de minhas chagas, vem socorrer, ainda uma vez, meu coração miserável e infeliz!...”[7]
Preciso é desvendar o Cristo para nos convertermos em trabalho de edificação no bem. O momento requer trabalhadores afinados com o propósito de renovação pelo qual a comunidade terrestre avança.
O homem saberá quem é o Cristo quando suas ações diminuirem as dores , as aflições e o sofrimentos dos seus semelhantes.
Articulemos nossos sentimentos sintonizando-os com o pensamento crístico que convida a todos a servir sem exigir reconhecimento.
  Quem és tu , Senhor? E disse o Senhor ao moço de Tarso: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões. [8]
Permita Jesus que  possamos atingir os fins a que nos  propomos,apresentando condições de convertemos ao seu amor e participar do movimento crescente de esperança no mundo vindouro.

Referências Bibliográficas:
1-Atos 9:5
2-Isaias 7:14
3- Zacarias 9:9
4-Miqueias 5:2
5-Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo espírito Emmanuel, questão 276, RJ: Ed. FEB 2000.
6- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 625- Rio de Janeiro: Ed FEB, 2007
7- XAVIER, Francisco Cândido. Há dois mil anos ,cap. V, ditado pelo Emmanuel, RJ: Ed. FEB, 2001
          8-Idem 1


*Jane Maiolo – É professora de Ensino Fundamental, formada em Letras e pós-graduada em Psicopedagogia. Dirigente da USE Intermunicipal de Jales. Colaboradora da Sociedade Espírita Allan Kardec de Jales. Pesquisadora do Evangelho de Jesus. Colaboradora da Agenda Brasil Espírita- Jornal O rebate /Macaé /RJ – Jornal Folha da Região de Araçatuba/SP –Blog do Bruno Tavares –Recife/PE e outros sites espíritas - Apresentadora do Programa Sementes do Evangelho da Rede Amigo Espírita. janemaiolo@bol.com.br -

domingo, 18 de dezembro de 2016

VEM AÍ O NATAL

     Margarida Azevedo 
Sintra/Portugal


...e com ele as depresssões e as angústias; o stress, os pobrezinhos e as ceias colectivas em instituições de caridade. Sabe-se que durante todo o ano vão-se construindo pobres, tantos que,nem cogumelos. Não interessa a redução do poder de compra, nem as injustiças sociais mais o bloqueio de quem pretende singrar na vida, nem o silenciar de quem tem razão. É tudo isto, e muito mais, que virá a justificar o natal da caridade, não de quem dá, mas de quem, humilhantemente, precisa.

Por entre montras reluzentes, lojas simpáticas com cânticos natalícios, centros comerciais a abarrotar, surgem as alegrias dos que podem comprar; o riso amarelo dos que só compram o que podem, politicamente remetidos para o consumo do que não querem; dos que muito compram, mas que não precisam de nada, por status, por ser chique, porque dá classe. Também há, poucos, os que não compram…

Este painel é revelador de um cristianismo de fachada, cumpridor de datas, incapaz de conciliar a tradição com a modernidade, de articular o lado espiritual com a necessária mudança social que o tempo, objectivamente, vai impondo. Em Portugal, os Centros Espíritas, na sua maioria, fecham portas nos dias 24 e 25 de Dezembro. Devem ser das poucas organizações cristãs a fazê-lo. Lamentamos. Mas é claro, como fora da caridade não há salvação, o dever está cumprido: as bananinhas, as bolachinhas e o leitinho já seguiram viagem rumo aos necessitados, aliviando a consciência. Assim se dispensa a ida ao Centro Espírita, para orar pelos que já partiram, ou pelos que estão do lado de cá da cortina, à procura de uma explicação avisada, convincente, que nos diga porque é que há tanta ingratidão.

De facto, tudo se resume a mais um dia feriado. Quem foi Jesus, o que significa o seu nascimento, o que representa para nós, hoje, aqui e agora, pouco importa. O Jesus histórico, o Cristo, o modo como estava no judaísmo, não são relevantes.

Ora não são as lojas, os presentes, as cores, o brilho, a iluminação das ruas, a fantasia em torno das crianças, enfim, os responsáveis pelo alarido que esmaga a religiosidade, mas a sobrevaloração do comercial, o apagar da luz do Espírito, a ausência do reencontro das famílias em torno de uma prece, ou na celebração da felicidade .

Por outro lado, politicamente, há que globalizar. Na tentativa de tornar o Cristianismo uma religião universal, tolerante, respeitadora das diferenças, verifica-se pecisamente o contrário. Distanciando-se, infelizmente, das suas raízes, não se afirma enquanto seguidor do seu profeta, mas como representante de sociedades baseadas numa economia de mercado, confundindo a felicidade da mensagem salvífica, no contexto teológico de então e de hoje, com o poder de compra de que o materialismo dos nossos dias é representativo. Dito de outro modo, a felicidade do Natal depende mais do brilho das gambiarras da árvore de natal do que propriamente do festim espiritual a que Jesus alude nos evangelhos. O religioso confunde-se com o laico, perdem a sua contiguidade, e o segundo sobrepõe-se ao primeiro. 

Comprar transformou-se num anti-depressivo, é aconselhado para combater frustrações e expulsar as neuras, uma forma de combater a lembrança dos infurtúnios da infância, tais como as repressões da família que, incompreensivelmente, não deixava os meninos darem pontapés nas canelas dos avós, quando estavam muito nervosos, ou quando faziam birra porque não queriam comer a sopa mas a sobremesa. Enfim, pequenas desgraças psicológicas. Felizmente que há natal para sublimar esses tempos de terror familiar. Assim, lembre-se, ao receber uma prenda natalícia, pode muito bem estar a colaborar na cura de grandes quadros depressivos, neuróticos, ansiosos, e tudo o que de mais houver na psique.

Efectivamente, podemos oferecer uma prenda a quem quisermos porque dar é um prazer, mas que isso não seja encarado como uma obrigação do Natal, antes como um gesto de amor para com aquele que recebe. Neste sentido, o Natal será todos os dias, no que há de mais saudável: amar.


Margarida Azevedo