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terça-feira, 17 de abril de 2018

Diante das dores não existe injustiça no código de Deus (Jorge Hessen)

Diante das dores não existe injustiça no código de Deus (Jorge Hessen)

Jorge Hessen
jorgehessen@gmail.com

Letícia Franco, de 36 anos, médica de Cuiabá já foi internada dezenas vezes desde 2010.  Só na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) foram 34 vezes. O grande sofrimento é causado por uma doença crônica degenerativa que fez com que ela postasse recentemente, uma espécie de despedida nas redes sociais: "Em 16 dias estarei longe, na Suíça, fazendo o que me deixará livre da dor e do medo. Acho que amanhã ou depois desligo esse facebook [...] (sic) Toda minha família deixo meu mais sincero amor", postou no dia 1º de março de 2018. [1]
Foi em 2017, quando esteve  internada e fez a traqueostomia para poder respirar, que começou a pensar no suicídio assistido. Como médica, ela sempre defendeu que pacientes de doenças incuráveis ou com morte cerebral pudessem ter essa opção. A decisão de colocar fim à vida, segundo Letícia Franco, foi extremamente difícil e envolveu questões religiosas. No momento, Franco afirma ter suspendido o plano - a possibilidade de poder ter seu caso estudado e ajudar outras pessoas que tenham a mesma doença a levou a mudar de ideia. [2]
A viagem à Suíça citada na mensagem apontava para o plano de “eutanásia” ou suicídio assistido em uma conhecida clínica que oferece esse serviço para pacientes terminais que desejam por um fim a sua vida, prática que é legal naquele país, ao contrário do que acontece no Brasil.
No Brasil, a Constituição e o Direito Penal são bem claros: a eutanásia constitui assassínio comum. Nas hostes médicas, sob o ponto de vista da ética da medicina, a vida é considerada um dom sagrado, e, portanto, é vedada ao médico a pretensão de ser juiz da vida ou da morte de alguém. A propósito, é importante deixar consignado que a Associação Mundial de Medicina, desde 1987, na Declaração de Madrid, considera a eutanásia como sendo um procedimento eticamente inadequado.
Não cabe ao homem, em circunstância alguma, ou sob qualquer pretexto, o direito de escolher e deliberar sobre a vida ou a morte de seu próximo, e a eutanásia , essa falsa piedade, atrapalha a terapêutica divina nos processos redentores da reabilitação. Nós, espíritas, sabemos que a agonia prolongada pode ter finalidade preciosa para a alma e a moléstia incurável pode ser, em verdade, um bem..
Nós, espíritas, sabemos que a agonia física e emocional prolongada pode ter finalidade preciosa para a alma e a enfermidade pertinaz pode ser, em verdade, um bem. A questão 920, de O Livro dos Espíritos, registra que “a vida na Terra foi dada como prova e expiação, e depende do próprio homem lutar, com todas as forças, para ser feliz o quanto puder, amenizando as suas dores”. [3]
O verdadeiro espírita porta-se, sempre, em favor da manutenção da vida, respeitando os desígnios de Deus, buscando não só minorar seus próprios sofrimentos, mas também se esforçar para amenizar as dores do próximo (sem eutanásias), confiando na justiça perfeita e na bondade do Criador, até porque, nos Estatutos Dele não há espaço para injustiças e cada qual recebe da vida segundo suas necessidades e méritos. É da Lei maior!

Referências bibliográficas:
[1]     Disponível em http://www.bbc.com/portuguese/brasil-43575735, acesso em 10/04/2018
[2]     Idem
[3]     KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, RJ: Ed FEB, 2002, pergunta 920

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Adolescentes que “casam” e ou engravidam precocemente (Jorge Hessen)


Adolescentes que “casam” e ou engravidam precocemente (Jorge Hessen) 


Jorge Hessen 
jorgehessen@gmail.com 

Estreando mais cedo na prática sexual e estando mais suscetíveis às influências dos adultos, as adolescentes são vítimas das induções psicológicas da sociedade. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, os últimos disponíveis, indicam que 877 mil mulheres que têm hoje entre 20 e 24 anos se “casaram” quando tinham até 15. 

Segundo estudo realizado pelo Instituto Promundo entre 2013 e 2015, Maranhão e Pará são os Estados com maior prevalência de “uniões” precoces. O levantamento mostra que as meninas se “casam” e têm o primeiro filho, em média, aos 15 anos. A pesquisa atribui o “casamento” infantil a três causas principais. 

A primeira é vulnerabilidade das comunidades, caracterizada por baixos níveis de escolaridade e infraestrutura, e fraca presença do Estado. Em segundo lugar, as adolescentes querem sair da casa dos pais porque desejam começar a namorar e, por isso, veem no “casamento” uma forma de fuga das proibições dos pais. A terceira causa é a fragilidade das estruturas familiares, que leva as meninas a buscar estabilidade e segurança fora de casa. 

A ânsia por liberdade, a desestrutura familiar e a vulnerabilidade das comunidades atingem também os grandes centros urbanos, especialmente a periferia das cidades. É o retrato de um Brasil sacudido por uma violenta crise ética, alimentada pela petulância e cinismo presentes nalguns juízes do ineficaz STF (nossa suprema corte de justiça) e da desonestidade de políticos que deveriam dar exemplo de integridade moral e honradez. 

A responsabilidade também pode ser compartilhada com o povo, com os governantes, com os formadores de opinião e pais de família, que, num exercício de anticidadania, aceitam que uma nação além de corrupta seja ainda definida no exterior como o poleiro do sexo fácil, barato, descartável. É triste, para não dizer trágico, ver o Brasil ser citado como um paraíso cultural de promiscuidade, corrupção, um oásis excitante para os turistas que querem satisfazer suas taras e fantasias sexuais com crianças e adolescentes conterrâneos. 

A juventude está atônita, sem alicerces morais intensos, ofuscada, com influências extremamente sensualistas. Nas crônicas históricas, jamais um jovem teve contato tão aberto com mensagens erotizantes como nos dias atuais, graças à Internet. Esse trágico quadro moral nos remete à filosofia do prazer que impulsiona a recondução do adolescente à era das cavernas, fazendo-o mergulhar nos subterrâneos das orgias e ali entregando-se à fuga da consciência e do raciocínio pela busca do deleite alucinado pelo prazer imediato do sexo. 

No Sudeste brasileiro há casos em que meninas de 10 a 12 anos, frequentadoras dos típicos bailes (funk e análogos) engravidam. No Nordeste há diversos casos de aliciamento de menores, muitas vezes abusadas pelos próprios pais. Cada vez mais cedo, e com maior magnitude, as excitações da criança e do adolescente germinam adicionadas pelos diversos e desencontrados apelos das revistas libertinas, da mídia eletrônica, das drogas, do consumismo impulsivo, do mau gosto comportamental, da banalidade exibida e outras tantas extravagâncias, como espelhos claros de pais que relaxam em demorar-se à frente da educação dos próprios filhos. 

Uma adolescente que “casa” e ou engravida precocemente é, sem dúvida, uma pessoa cujos direitos foram violados e cujo futuro fica comprometido. O “casamento” e ou gravidez precoce ecoa a indigência e a repressão de cúmplices (família e comunidade). Não obstante esse caótico cenário, há muitas adolescentes que têm atividade religiosa oferecendo um conjunto de valores morais que as encoraja a desenvolver comportamento sexual equilibrado. 

De ordinário, uma adolescente evangelizada, fiel ao recado de Jesus (independente do rótulo religioso que abrace), é, quase sempre, bastante rígida no que diz respeito à constituição familiar e abstenção da prática sexual pré-marital. 

Lembremos que pais equilibrados produzem lares equilibrados; lares equilibrados resultam em filhos equilibrados, mesmo que resvalem em algumas compreensíveis e pequenas falhas humanas. 




domingo, 8 de abril de 2018

O Espírita e a Política: uma reflexão a respeito das manifestações em redes sociais

O Espírita e a Política: uma reflexão a respeito das manifestações em redes sociais
Vladimir Alexei

Vladimir Alexei
Belo Horizonte, das Minas Gerais,
07 de abril de 2018

Um dos maiores espíritas que reencarnaram no Brasil, foi político renomado: Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti. No mesmo período – final do século XIX – encontraremos Anália Franco como membro do Partido Republicano, fato que ela sabia separar, com distinção, de sua militância social e educativa. Cairbar Schutel assumia o posto de vereador pela primeira vez em 1889, Eurípedes Barsanulfo na pequena Sacramento, também dedicou-se à política, dentre muitos outros.
Ignorar a presença de políticos, cientistas, acadêmicos, empresários e filósofos no meio espírita, ao longo de sua existência, seria uma injustiça histórica. Figuras ilustres como Lins de Vasconcelos e Frederico Figner, empenharam suas vidas e suas respectivas fortunas à divulgação do Espiritismo. Envolviam-se em terreno delicado ao propor levar um pouco mais de luz, de esclarecimento ao povo mais necessitado.
Se recuarmos um pouco mais no tempo, veremos que o movimento que ocorreu no Brasil, espelhava aquilo que havia começado na França quando intelectuais, artistas, políticos e acadêmicos fizeram coro ao trabalho de Allan Kardec na propagação doutrinária. A França que abrigou Voltaire e Rousseau, precisou de conflitos armados para fazer com que a democracia se instaurasse. Segundo o historiador Will Durant, o movimento democrático nasceu do “dinheiro e da pólvora”.
Onde queremos chegar? Que falar sobre política e fazer política é tão natural quanto necessário. O que tem chamado a atenção, nas redes sociais, é a falta de compromisso com que a política tem sido compartilhada, inclusive, por espíritas. Assemelha-se a uma torcida de futebol em que os opostos desfilam provocações cada vez mais ácidas, demonstrando fragilidades preocupantes.
A omissão de instituições espíritas quanto ao cenário político, transformou-se em algo “normal”, quando lideranças confundem a liberdade de opinião com o laissez faire, no sentido de o que você quiser fazer é problema seu, afinal, não esclarecerem seus profitentes.
Recentemente, um espírita de renome, por seu belíssimo e indiscutível trabalho assistencial desenvolvido em bairro de periferia de Salvador, além de extensa obra mediúnica, foi duramente criticado por posicionar-se a favor da “direita” e daqueles que a imprensa tem noticiado como “pessoas de bem”. É a opinião dele e deve ser respeitada, assim como devemos respeitar a opinião daqueles que pensam diferente, como os que se colocam de “esquerda”.
Aliás – apesar de toda a crítica que essa reflexão receberá –, combina mais com o espírita o posicionamento de esquerda do que da situação. Por que? Porque o progresso social, a partir do progresso individual com acesso à educação e melhores condições de vida deveria ser uma plataforma de trabalho do espírita, de acordo com seus recursos e posicionamento social. As Leis Morais em O Livro dos Espíritos podem elucidar melhor esse pensamento.
O que tem ocorrido é uma confusão dantesca entre o agente de corrupção e a corrupção. A corrupção é uma das manifestações do egoísmo humano, quando, em detrimento ao bem comum, opta-se por levar vantagens pessoais, sem pensar no progresso que poderia realizar se agisse da forma diferente. O “instrumento de escândalo” (o corrupto) é refém de suas escolhas, arregimentando compromissos de ordem espiritual cada vez mais sérios e que deveria ser motivo para profundas reflexões de nossa parte: acaso estamos isentos de erros, mazelas e dificuldades de toda ordem? Eleger um “salvador” que não seja o “Modelo e Guia da Humanidade” é procurar amparo para legitimar ideias egoístas.
Os instrumentos que hoje avaliam a corrupção, também se beneficiam dela, de maneira que, seu senso de justiça nem sempre é capaz de sobrepor o posicionamento político de “situação-oposição”, obnubilando o julgamento de condenar.
Quem está certo? Quem está errado? Camille Flammarion, no túmulo de Allan Kardec proferiu discurso que se notabilizou por considerar Kardec o “bom senso encarnado”.
Um amigo, de esquerda, com profundo bom senso – em todos os campos da vida, admirável, diga-se de passagem – sempre nos diz que “os extremos devem ser evitados”.
Não tenho vinculação a nenhum partido político. Fui eleitor tanto de esquerda quanto de direita ao longo dessa jornada terrena. Procuro, como livre pensador, analisar prós e contras, ainda que contrariem as opiniões dos amigos. No máximo, evito discutir e tentar “impor” meu ponto de vista para que as discussões não se exaltem além do ambiente fraterno em que começaram. Busco vislumbrar qualidades na oposição e situação para escolher candidatos e seus respectivos projetos para solucionar os problemas do país. Acertamos e erramos em nossas escolhas, mas não transformamos nosso posicionamento pessoal em motivo para brigas, contendas e desavenças, sejam no meio espírita ou fora dele.
Que o espírita se posicione favorável ou contra determinada corrente política, mas que sua forma de se posicionar seja pautada nos princípios doutrinários que, na atualidade, ele consegue praticar. Não sejamos nós, espíritas, motivo de escândalo, incentivando a proliferação de ideias contrárias ao que a Doutrina Espírita nos orienta, seja de esquerda ou direita: o contraditório é saudável no processo de aprendizado!
“Aos homens progressistas se deparará nas ideias espíritas poderosa alavanca e o Espiritismo achará, nos novos homens, Espíritos inteiramente dispostos a acolhê-lo.” (Allan Kardec)

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Overdose de carpe diem e os fenômenos da neuroplasticidade

Jane Maiolo


Por Jane Maiolo
Pois eu tenho a certeza de que nada pode nos separar do amor de Deus: nem a morte, nem a vida; nem os anjos, nem outras autoridades ou poderes celestiais; nem o presente, nem o futuro. (Romanos 8 : 38,39)¹
A sociedade atual experimenta uma instabilidade generalizada em face de um panorama de incertezas que se projeta no horizonte. Aqueles que concebem apenas a unicidade da experiência física deparam-se com a necessidade de prosseguir vivendo sem se afligirem com os obstáculos da caminhada, repensando meios de conquistarem a felicidade fugitiva.
As pessoas, cientes que a vida física é uma experiência do espírito imortal, devem buscar as lições norteadoras do bem, cônscios da tutela do Cristo,  a fim de buscarem a renovação dos valores essenciais nas vastas experiências nas quais todos estamos incursos. Vivemos tempos céleres, rápidos, tempestuosos. Tempos já vividos dantes, histórias que se repetem, lições abortadas e novos recomeços.
A cultura do “carpe diem” , muito difundida e tão pouco refletida , nos estimula as mais intensas emoções da matéria. Vivemos um período alucinante por sensações imediatas, onde os pensamentos desorganizam, os sentimentos se confundem e as emoções extrapolam. A rigor, “carpe diem” significa uma experiência psicoemocional imediatista e sem preocupações com o amanhã. É desfrutar a vida e os prazeres do momento em que se “vive”. Esta expressão tem o objetivo de lembrar que a vida é breve e efêmera e por isso, cada instante deve ser “vivido” apoteoticamente, por conseguinte, esse conceito é largamente aceito pelo materialista ou sensualista, que carece entorpecer  os sentidos a fim de suportar os açoites das expiações e provações e as lágrimas desconfortantes.
Entretanto, somos espiritualistas e paradoxalmente acreditamos  que devemos aproveitar ao máximo o “aqui e agora”  a fim de que o nosso amanhã seja um tanto mais proveitoso rumo ao nosso aperfeiçoamento moral.  Lamentavelmente a sociedade humana, ainda descompromissada com os valores do espírito imortal, promove essa cultura que arrasta as criaturas primárias para as experiências não aconselháveis. Haja vista a infinidade de festa open bar oferecidas aos jovens, a puerilidade dos relacionamentos e a imaturidade que encontramos nos fúnebres cenários da sociedade contemporânea.
Uma humanidade acriançada que ambiciona tão-somente o sedutor prazer da vida, deixando o dever para mais além do fugitivo imaginário. Estamos cada vez mais envoltos num clima de egocentrismo , isolamento e retraimento social, não obstante contíguo à multidão. Alguns experimentam a obscuridade moral a ponto de descobrir nos relacionamentos virtuais a válvula de escape para aliviar o turbilhão das suas carências e desditas afetivas.
Entretanto, o alerta para essas realidades é a sensação subjetiva de estar isolado e não ter para quem se expandir, falar, prantear, se regozijar, ou buscar dividir as emoções. São duas faces de uma mesma moeda. Em alguns períodos vivemos intensamente as experiências e em outros nos abatemos completamente no isolamento.
            O “carpe diem” descomedido pode até mesmo nos dar a impressão de estarmos vivendo intensamente o momento, porém , importa refletir quais são os valores que temos granjeado nessa competição alucinada pela satisfação instantânea.
            O apóstolo da gentilidade diria: “Pois eu tenho a certeza de que nada pode nos separar do amor de Deus: nem a morte, nem a vida; nem os anjos, nem outras autoridades ou poderes celestiais; nem o presente, nem o futuro; nem o mundo lá de cima, nem o mundo lá de baixo.Em todo o Universo não há nada que possa nos separar do amor de Deus, que é nosso por meio de Cristo Jesus, o nosso Senhor.” (1)
Considerando que fomos criados por uma Inteligência Suprema é importante que passamos nos sentir parte da divindade. Conectando-nos a Deus. O pensamento ilusório de que somos autossuficientes tem gerado uma série de conflitos emocionais,  promovendo um sentimento de incompetência, fracasso existêncial e incompletude. Em verdade são sentimentos conectados a apreciações que denunciam a incondicional ausência de valores morais que nos permita maior aproximação de Deus.
A aflição de viver e o eterno recomeço para a busca da vida venturosa são segmentos do processo de construção do ser na forja do tempo. Após milênios de experiências malogradas e  enriquecedoras desponta para todos  a capacidade de desenvolver as perenes potências espirituais.
Entendemos que a neuroplasticidade ou plasticidade neural,  definida como a capacidade do sistema nervoso modificar sua estrutura e função em decorrência dos padrões de experiência, e a mesma, pode ser concebida e avaliada a partir de uma perspectiva estrutural , na configuração sináptica (2) ou funcional , na modificação do comportamento.
Sob o comando do espírito consciente de suas necessidades evolutivas, através do impulso da vontade e determinação constante,  ocorre a modificação estrutural física e perispiritual. A neuroplasticidade nasce de uma necessidade da mente humana em buscar saídas assertivas. Somos seres cognitivos e não existem limites para nossas criações. A legitimidade das nossas buscas obrigará nossas estruturas fisiopsíquicas a encontrar caminhos que darão novo significado à vida.
Nada no mundo nos afastará do amor de Deus, nem a ilusão, nem solidão, nem a penumbra das emoções e nem o “carpe diem” exagerado. Tenhamos a certeza que o Amor do Criador é patrimônio que também nos pertence, por direito inalienável. Se preciso for utilizaremos de todos os recursos divinos para nos moldar a essa excelsa herança.


Referência bibliográfica:

1-        Romanos 8:38-39
2-        Algo que cria um novo caminho ou alternativa em sua vida ou de outrem, bom ou ruim. Geralmente precisa de tratamento psicológico ou quimico para ser alterado ou ainda mudança de atitude séria por parte de quem o enfrenta.

(*)Jane Maiolo – É professora de Ensino Fundamental, formada em Letras e pós-graduada em Psicopedagogia. Colaboradora da Sociedade Espírita Allan Kardec de Jales. Pesquisadora do Evangelho de Jesus. Colaboradora da Agenda Brasil Espírita- Jornal O Rebate /Macaé /RJ – Jornal Folha da Região de Araçatuba/SP –Blog do Bruno Tavares –Recife/PE - colaboradora do site www.kardecriopreto.com.br- Revista Verdade e Luz de Portugal, Revista Tribuna Espírita de João Pessoa,  Apresentadora do Programa Sementes do Evangelho da Rede Amigo Espírita. Janemaiolo@bol.com.br -

terça-feira, 3 de abril de 2018

O espírito deseja, o perispírito vibra e o corpo experimenta (Jorge Hessen)

O espírito deseja, o perispírito vibra e o corpo experimenta (Jorge Hessen) 
Jorge Hessen 

Pesquisadores da divisão de doenças digestivas do Mount Sinai Medical Center, em Nova York, nos Estados Unidos, encontraram um “novo órgão” do corpo humano. A descoberta só foi possível porque eles utilizaram um novo equipamento, uma nova versão do endoscópio, mangueira com uma câmera na ponta que permite analisar o sistema digestivo. 
Para Neil Theise, professor em patologia e um dos responsáveis pela pesquisa, existe uma unidade e singularidade de estrutura ou de função do fluido intersticial, que compõe 20% do líquido do corpo. Esse fluido intersticial circunda as partes do corpo que se movem, como a pele ou o pulmão. O pesquisador jamais questiona como o fluido intersticial (densa camada de tecido conjuntivo) sobrevive a tanto estresse sem se romper. Agora se sabe que não são tecidos conectivos densos; eles são distensíveis e compressíveis espaços cheios de fluido. Isso pode inclusive ajudar a explicar como o câncer se espalha pelo corpo”, segundo Theise. [1] 
Os espíritas sabem que a nossa carcaça biológica é o espelho do corpo perispiritual. Para que futuramente a ciência avalie melhor a mecânica e a natureza do corpo humano, necessitará estudar mais profundamente a estrutura funcional do perispírito, como matriz gerenciadora das funções do corpo físico. O perispírito não tem sido estudado atualmente por ausência de instrumentos e equipamentos de laboratório mais possantes. A ciência acadêmica ainda está muito distante de conhecer e melhor entender a estrutura de funcionamento do psicossoma. 
A nossa realidade mento-espiritual gera o impulso criador que se projeta no corpo perispiritual e, depois, no corpo físico. Em outras palavras: quando o espírito deseja, o psicossoma vibra e o corpo experimenta. Nessa linha de raciocínio concluímos que o processo imunológico, que neutraliza o desenvolvimento de doenças (inclusive o câncer), é resultante do trabalho permanente no bem e na prática da solidariedade, da fraternidade e do perdão irrestrito, atributos estes do espírito imortal. 
Alguns embriogenistas atuais "desconfiam" da existência desse princípio e tentam, de alguma forma, comprovar essa desafiadora "matriz gerenciadora" no mecanismo da geração orgânica. Ensinam os benfeitores espirituais que o psicossoma tem função organogênica. Destarte, permite a formação do próprio organismo e funciona em harmonia com os códigos genéticos. Por essa razão, na sua ausência, o processo de fecundação seria uma composição orgânica sem forma definida (amorfa). 
O espírito, através do perispírito, "influencia o citoplasma (sede das forças fisiopsicossomáticas), juntamente com as funções endocrínicas, por estar fixado no sistema nervoso central e enraizado intrinsecamente no sangue, sendo o modelador definitivo da célula". [2] 
Sabe-se que se forem colocados fragmentos de tecidos orgânicos da epiderme ou do cérebro numa porção de soro em temperatura ideal, o fragmento acusa uma intensa vida. Depois de algumas horas, os produtos da excreta intoxicam o soro, impedindo, com isso, o desenvolvimento celular. Renovando o soro, as células crescem novamente. Porém, sem o governo mental, através do perispírito, em nada ficam sequer parecidas com as suas irmãs em funções orgânicas. [3] 
A nossa realidade mento-espiritual gera o impulso criador que se projeta no corpo psicossomático e, depois, no arcabouço físico. Em outras palavras, quando o espírito quer, o períspirito amolda e o corpo é formado de conformidade com o molde perispiritual. 

Referências bibliográficas: 

[2] XAVIER, Francisco Cândido & VIEIRA Waldo. Evolução em Dois Mundos, Ditado pelo Espírito  André Luiz, RJ: Ed. FEB, 2002 

[3] As células tomam aspectos diferentes conforme a natureza das organizações a que servem e a inteligência, influenciando o citoplasma, obriga as células ao trabalho de que necessita para expressar-se, trabalho este que, à custa de repetições quase infinitas, se torna perfeitamente automático para as unidades celulares que se renovam, de maneira incessante, na execução das tarefas que a vida lhes assinala. 

domingo, 1 de abril de 2018

A CRUCIFICAÇÃO DE JESUS A GRANDE TRAGÉDIA DO OCIDENTE

Margarida Azevedo


            Fora das grandes temáticas existenciais da tragédia grega, lembremos Antígona, de Sófocles, em que os deveres de família e os da cidade entram em conflito; quando a tragédia é a tomada de decisão que vai contra uma ordem pré-estabelecida imanente à cidade, baseada numa opção em que a protagonista decide morrer em nome do cumprimento do dever para com a lei interior, a família, temos o trágico como ruptura entre o particular e o geral.

            Mas a tragédia não é apenas o terreno do conflito ético e político do humano em que os deuses tomam partido e o mito se impõe com toda a sua força como forma explicativa dos nossos problemas existenciais. A tragédia também é pertença do religioso monoteísta. A crucificação de Jesus conduziu a uma dimensão trágica da fé enquanto manifesação existencial de entidades em conflito. Com Jesus não temos propriamente o conflito entre geral e particular, mas o particular manifestante de uma tanscendência em oposição a alguns aspectos do geral.

Os tragiógrafos gregos, muitos séculos antes de Cristo, mergulhados no mais fundo sentido do mito, jamais conseguiriam pensar uma realidade como esta. Jesus não é uma abstracção que se impõe, reflexiva, a algumas práticas judaicas de então, mas um homem que, muito embora fiel à sua fé judaica remete a mesma para uma interioridade que, pelo muito amar, é voz directa de Deus. Imanente e transcendente encontram-se na cruz como máximização da fé. Jesus não foi o profeta da política nem da economia, mas deu os trunfos para, mediante o Amor e nada mais, conduzir o homem/mulher à mudança do rumo da História.

            A dimensão trágica entra também perante a realidade de um judeu (lembremos, antigo discípulo de João Baptista),condenado à morte como zelota (radical insurrecto e extremista, mas que ele nunca o foi); temido como possível rei dos judeus; blasfemo porque, talvez, messias (o que ele não queria ser, Mc 1:44); crítico da estagnação numa tradição que, muito embora identificadora de um povo, tem que naturalmente submeter-se ao progresso, que não significa anulação mas complementaridade; seguidor/defensor da Lei/profetas, nomeadamente Jeremias e Isaías; pregador provinciano desejoso de se isolar (Mc 1: 40-45), e, no fundo, insignificante.

            Os Cristãos têm-se esforçado por legitimar o mal-entendido desta condenação e, simultaneamente conferir-lhe uma continuidade teológica: Jesus é o Messias proclamado pelos profetas do antigo Israel. Ora nem as profecias eram para tão longo espaço de tempo, nem o messias seria, pela sua própria natureza messiânica, dependente de uma profecia. O sonho colectivo de um povo, geralmente, não é coincidente com os factos históricos nem com as dinâmicas da fé. O que caracteriza o humano é a sua imprevisibilidade, e Deus não obedece aos homens/mulheres. Uma das tragédias humanas é precisamente a da ilusão de que diz o que Deus é, superlativizada aquando da colagem a um profeta.

            Quanto ao texto bíblico, este representa a esperança de um povo que pretende viver autonomamente, esperançoso de que venha um Enviado trazer um modelo de governação que sintetize história/fé, política/religião. Isto faz todo o sentido. A fé é tão terrena como a esperança ou desejo de libertação. Uma fé não libertadora, isto é, não praticável na realidade existencial, é uma quimera. A fé tem que ser uma resposta.

            Os Cristãos  foram construindo um messias que, a pouco e pouco, se distanciou do mundo terreno, projectando o objectivo da sua existência no para lá, um Reino de Deus longe do mundo. Os Judeus, contrariamente, pretendiam um messias totalmente voz de Deus mas no mundo, o que significa que sem mundo Deus está-nos vedado, e sem a fé em Deus não temos fundamento existencial para o mundo.

            E a questão impõe-se: Jesus é messias ou não? O messias já veio ou está para vir? Pregador do Reino de Deus através do Amor, estamos em presença de uma reafirmação de que a política e a fé são compatíveis: o governante é um messias na medida em que muito ame o seu povo. À semelhança da noção de falsos profetas de que falou o jovem Jeremias, os quais não são apenas os videntes ao serviço de forças malignas (Jr 14:13-16), como pensam alguns, infelizmente, mas os que profetizam em seu nome pessoal (idem), mas de políticos que pregam no Templo e na sinagoga uma coisa e que, no acto de governar, não cumprem com os parâmetros que lêem na Lei. A falsa profecia é todo um conjunto de interesses particularistas, tornando redutível a prática da Lei a um pequeno espaço, o lugar de culto e de estudo. Repare-se que todos os profetas desempenharam um papel importante no momento histórico em que viveram, aliás, a dimensão historico-política é indissociável dos seus discursos proféticos. Veja-se o exemplo das grandes temáticas de então: leis injustas, Is 10:1-2; grande propriedade, Is 5:8-10; baixos salários, Jr 22:13-15; pesados impostos, Am 2; 8; 5:11, juntamente com as grandes reflexões religiosas: falsos profetas, Jr 14:13-16; a idolatria, Jr 44, ou ainda aspectos estruturantes da sociedade: luxo, Is 3:18-24; escravatura, Jr 34:8-11.

            Ora a tragédia em torno da crucificação de Jesus situou-se mais no campo político do que propriamente religioso. Depressa a perseguição a grupos religiosos aos quais impunham a culpa da crucificação conduziu a conflitos evitáveis. Tornou-se uma questão cultural e psico-social, esvaziando o verdadeiro sentido messiânico e profético. Neste quadro, Jesus é o profeta libertador para lá do político e do religioso particulares na medida em que ensina um novo modelo de conduta: a universalidade da Lei só faz dentido mediante o Amor, ou seja, governar é um acto de amor supremo;  de um ponto de vista religioso, o bem amar agrada a Deus e garante o Banquete no Seu Reino. O Messias é um conciliador. Fora disto prolonga-se a tragédia de Jesus na Cruz e não a paz libertadora da Ressurreição; culpam-se uns, inocentam-se outros, sem perceber que os homens/mulheres são protagonistas quer na dimensão trágica como na libertadora; todos são prisioneiros em terra estrangeira e todos procuram a Terra Prometida. Em Jesus é o Reino de Deus.

            Mas onde é esse reino? Num mundo distante onde, ao ingressarmos seremos automaticamente bons e generosos? Um mundo que se nos revela somente após a morte? Um mundo paradisíaco de árvores de fruto coloridos e perfumados, de leite e de mel? O reino de Deus é aqui e agora, neste mundo, neste momento. O que se é aqui é-se em qualquer parte. O povo de Deus é o povo da paz espalhado pelo mundo.

            Fazer de Jesus um messias ou não não torna ninguém melhor ou pior. A fé pode tornar-se o grande mal se escravizada às convicções quando tidas como as únicas. A fé sem liberdade não é fé, mas uma confusão perigosa de ideias ao serviço do demoníaco. O infiel é alguém que crê apenas de forma diferente.

            Curiosamente, o Messias é reconhecido sem rodeios e sem dúvidas, em toda a plenitude, não por Judeus nem por Cristãos, mas pelos Espíritos imundos (Mc 3:11). Há aqui uma dimensão existencial que remete, inevitavelmente, para o enigma. Desta forma, a grande questão prevalece: Quem é Jesus? Podemos afirmar que os Espíritos imundos são as trevas e que só estas sabem quem é Jesus? A identidade de Jesus só é perceptível pelo imundo? O que é o imundo? Quem somos nós? Que Jesus representamos nas nossas cabeças/corações? Que noção temos da sua identidade? Que retrato fazemos dele?

            Cristãos, que imagem têm dado de Jesus ao longo da História? Que papel desempenhou a crucificação para as congregações cristãs? A História é a sequência de actos que acontecem no tempo e no espaço e, se não se aprender a enterrar o passado para dar lugar a um presente de paz, continuar-se-á a crucificar Jesus no Calvário da ignorância e a fazeer da nossa existência uma tragédia.

            Onde é que estavam os apóstolos quando Jesus foi crucificado? Onde estamos nós, judeo-cristãos dois mil anos depois? Em que lugar nos colocamos na História? As respostas são diferentes segundo os evangelhos. Jesus viveu a tragédia da solidão, o esvaziamento do humano nos momentos difíceis, a fragilidade das suas convicções quando elas eram mais necessárias. Porque desceu ele aos infernos das nossas precaridades, da nossa ignorância? Que fragilidade na força e que força na fragilidade nos quis transmitir?

            A Páscoa de Jesus é a Páscoa de Judeus e Cristãos. A passagem, a grande Passagem à consciência do trágico da Fé e da História que só pelo Amor é possível de ultrapassar. Não podemos continuar a permitir que o imundo se sobreponha ao mundo. Este judeu conferiu à Lei a maior força que se lhe pode dar: o Amor.

            Celebre esta Páscoa como a passagem à liberdade da alma, a proclamação de uma nova noção de beleza, a de comer em qualquer mesa sem preconceitos. Desejo-lhe uma Santa Páscoa.

Margarida Azevedo


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Sites consultados

obomministro.blogspot.com

pt.wikipedia.org/wiki/Jeremias

revistas.ufpr.br/vernaculo/article/viewFile


Bibliografia consultada

NEVES, Pe. Carreira das, As Grandes Figuras da Bíblia, Profetas, pp. 156-339, Editorial Presença, Lisboa, 2010.

SOFOCLES, Antígona, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2012.


Bíblia Consultada

Antigo Testamento, vol.III, Os Livros Proféticos, trad. de Frederico Lourenço, Quetzal, Lisboa, 2017.

Novo Testamento, vol.I, Os quatro Esvangelhos, trad. de Frederico Lourenço,, Quetzal, Lisboa, 2016.

Desafios do Evangelho - ser espírita

Vladimir Alexei 
Belo Horizonte, das Minas Gerais,
Domingo de Páscoa, 01 de abril de 2018




Estudando com os amigos do Grupo da Bênção (Mario Campos, Minas Gerais) a respeito dos tesouros contidos no Antigo e no Novo Testamento, nos assombramos, novamente, com o tamanho de Jesus.

Jesus é de uma profundidade e amplitude que a nossa razão ainda desconhece adjetivos e analogias que melhor representem sua condição espiritual. Faltam-nos sensibilidade para conseguirmos medir Sua grandeza, que, certamente, vai além do que é descrito no Novo Testamento.

No livro Gênese, Antigo Testamento, em seu primeiro capítulo, nos cinco primeiros versículos, encontramos, em seu sentido espiritual, elementos de uma profunda conexão entre Deus e Jesus, cuja beleza Emmanuel descreve na obra A Caminho da Luz, com riqueza de detalhes, em sua capacidade de síntese extraordinária.

Na Bíblia de Jerusalém, os cinco primeiros versículos foram traduzidos da seguinte forma: “No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um sopro de Deus agitava a superfície das águas. Deus disse: haja luz e houve luz. Deus viu que a luz era boa, e Deus separou a luz e as trevas. Deus chamou à luz “dia” e às trevas “noite”.” Poderíamos nos dedicar a interpretar versículo por versículo (quem sabe um dia?), mas nos limitaremos a entender alguns pontos. Por formação da Terra, Emmanuel explica a partir da nebulosa que se desprende do Sol e que se forma, incandescente, depois esfria e se transforma incessantemente no decorrer do tempo até criar condições para os primeiros movimentos de vida no planeta.

Quando nos mantemos no estudo e entendimentos do campo “material” é possível compreender o processo de transformação vivenciado pela Terra. O desafio está em traduzir a simbologia contida nas escrituras, para a transformação da vivência espiritual.

Sem dúvida alguma a Uranografia, assim como estudos a respeito da evolução planetária são de suma importância para compreendermos que tudo no Universo se encadeia em uma lógica infinitamente superior à nossa compreensão de mundo, na atualidade. O que é estimulante, do ponto de vista da pesquisa e superação dos limites. Os estudos acadêmicos, notadamente a partir do positivismo de Augusto Comte, que tentou atribuir um caráter mais seguro e definitivo às investidas científicas, produzem, ao longo do tempo, pesquisas estruturadas de acordo com os mecanismos capazes de comprovar, em parte ou no todo, aquilo que se propõe estudar. Contudo, esse estudo esbarra nas comprovações espirituais, algo que algumas universidades já aceitam melhor, de acordo com as recentes publicações (artigos, dissertações e teses). Allan Kardec se valeu dessa filosofia para, ao longo de quatorze anos, conceber obra que pudesse nos acompanhar no melhor entendimento daquilo que Jesus trouxe.

Parece místico, mas é totalmente racional: sem a chave do espiritismo, a compreensão dos ensinamentos de Jesus continuaria arranhando a superfície, sem abrir espaço para a compreensão do ser, quanto ao seu destino e as dificuldades vivenciadas no presente. Sem compreendermos os princípios fundamentais em que a Doutrina dos Espíritos se assenta, será incompleto o entendimento a respeito das ocorrências diárias. A reencarnação, por exemplo, explica uma série de fenômenos, que os defensores de uma vida única não conseguem compreender. Aliás, a vida é única sim: o espírito é um só, mas as experiências são multisseculares. Herculano Pires em sua magistral obra O Espírito e o Tempo, nos diz que “nunca poderemos fugir à realidade dos fatos, que nos mostra o homem, na História, tomando conhecimento do mundo pela experiência (...)”.

É por isso que compreendemos melhor a tentativa do homem em traduzir a presença de Jesus, antes de sua encarnação. No versículo quarto, citado anteriormente, encontramos a expressão Deus viu que a luz era boa, e Deus separou a luz e as trevas. A “luz boa” é a luz do Cristo, cuja sintonia com o Pai (“Eu e o Pai somos um”, Jo., 10:30), foi capaz de conjugar os elementos necessários para a formação de um orbe que abrigasse espíritos exilados de outros orbes e aqueles que estagiariam aqui pela primeira vez em sua caminhada evolutiva. Existe luz ruim? Existem “gradações” da Luz, assim como existem gradações do Amor. Aquilo que ainda não compreendemos pode ser classificado à conta de ruim, assim como aquilo que nos ofusca o olhar pode também ser compreendido como algo ainda distante de fazer o bem. André Luiz, em uma de suas obras, relata a manifestação de espíritos que, de certa forma, apresentavam-se até com certa luminosidade, porém, essa chama, de um amarelado opaco, não resistia à razão calcada no amor e em busca da verdade, fazendo com que a entidade aos poucos caísse em si. É apenas uma interpretação de um fragmento do assunto, que vai muito além.

Os filósofos pré-socráticos, notadamente aqueles de Mileto, além de Pitágoras, Parmênides, Anaxágoras, Empédocles e Protágoras, traduziam suas compreensões da vida, pelas expressões da natureza, sempre em busca de algo superior. São considerados pré-socráticos em função dos seus estudos e não necessariamente por terem vivido antes de Sócrates. Com esse a filosofia passa a ter como elemento central o ser humano, por isso é um dos precursores do Espiritismo. “A vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”.

Poderíamos avançar ainda por Platão, Aristóteles, assim como viajarmos para a Ásia, na China milenar com Fo-Hi, Confúcio e Lao-Tse, dentre outros, que também perceberam a proteção de um Ser infinitamente Superior a tudo que já haviam sentido nesse orbe (e até em outros, cuja compreensão fora turvada pelo egoísmo e os degredaram para cá). De acordo com suas compreensões da vida, tentaram traduzir essa grandeza ainda a ser compreendida em profundidade que é a presença do Cristo.

Se imaginarmos que, ao encarnar, Jesus ficou durante trinta anos “misturado” à plebe, como se fosse mais um, já teríamos elementos de sobra para extrairmos da letra o espírito que vivifica. Entretanto, chama-nos a atenção, de forma vertiginosa, o que ele fez em três anos. O que Ele fez em apenas três anos ecoa e ecoará pela eternidade da humanidade vivente na Terra, seja de provas e expiações ou como mundo de regeneração. É o que na atualidade chamamos de “exponencial”. As atitudes de Jesus foram exponenciais, superlativas, de tal forma que o tempo não foi capaz de limitá-la.

Encontraremos Agostinho de Hipona, Santo Agostinho, falando sobre o “Sermão do Senhor na Montanha”, da seguinte forma, apenas para ilustrar essa exponencial figura chamada Jesus: “quem quer que considere de modo piedoso e simples o Sermão que Nosso Senhor Jesus Cristo pronunciou na Montanha, segundo lemos no Evangelho de São Mateus, julgo que encontrará nele, no tocante à retidão moral, a regra perfeita da vida cristã, o que não ouso afirmar temerariamente, mas deduzindo-o das mesmas palavras do Senhor. Do próprio final do Sermão depreende-se que nele estão contidos todos os preceitos concernentes à regulação da vida.”

As conexões entre aqueles que conseguiram apreender em profundidade os ensinamentos exponenciais do Cristo, são maiores do que nossa vã filosofia de vida é capaz de compreender, se nos movermos apenas no limitado campo de nossos conhecimentos. É preciso ampliar nossos limites: “A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original” (atribuída a Albert Einstein).

A teoria da relatividade, explicada pelo cientista recém desencarnado Stephen W. Hawking, em sua obra Uma breve história do Tempo, nos faz compreender porque essas conexões se assemelham a pontes atemporais: “o tempo deve parecer correr mais lentamente perto de um corpo volumoso como a Terra. Isso é devido à relação entre a energia da luz e sua frequência (...)”. O que isso quer dizer? Quer dizer que, traçando um paralelo entre as regras vigentes do campo físico (pelo menos aquilo que é considerado “axioma”), atribuindo os mesmos princípios ao campo do espírito, encontraremos, de tempos em tempos, espíritos decodificando os ensinamentos do Cristo (energia da Luz) de forma a ampliar ainda mais a ressonância do amor trazido pelo Cristo para os corações que já estão calejados e sobrecarregados de tantas experiências não tão bem sucedidas assim (frequência).

Por isso ainda, Allan Kardec, na introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, diz que a doutrina se vale do estudo “moral” dos ensinamentos de Jesus. E isso não limita-se aos ensinamentos amarrados por Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo. Ali temos o roteiro dos estudos quanto ao “método” (“como” estudar), atribuindo-lhes interpretações de cunho moral e espiritual. Aqueles que desdobraram a obra de Kardec, com base em seus ensinamentos, mantiveram-se fieis aos princípios. Aqueles que tentaram “inovar”, se perderam por falta de base. Distinguir uns dos outros, só conseguiremos se estudarmos suas obras. Por isso Paulo recomendava “ler de tudo”...

O Amor é a base de uma pujante obra que tivemos a capacidade de absorver fragmentos daquilo que foi emitido há mais de dois mil anos, no decorrer de apenas três anos. Será que compreendemos, em essência, o que Jesus conseguiu fazer em três anos? Por isso o adágio diz que “o amor cobre uma multidão de pecados”. É compreensível: uma atitude de amor concentra energia suficiente para sobrepor as mazelas dos homens. O desafio é empregar energia no Amor, quando o amor que conhecemos ainda é a manifestação maior do egoísmo. O Amor do Cristo é o que nos convida o entendimento Espírita. Desinteressado, fraterno, Divino!

Três anos que representaram instantes que se perpetuam e se imortalizam pela trajetória de figuras que conseguiram seguir e compreender os ensinamentos do Cristo, notabilizando-se, como aprendemos no estudo de ontem, em virtude de suas tendências, habilidades e “ressonâncias”, fruto da experiência, quedas e tropeços. Vejamos Paulo. Paulo de Tarso é um exemplo por que? Porque, dentre outros prismas, ele representa a figura do intelectual que falhou, que se deixou abater pelos encantos da inteligência, de uma mente preparada para conquistas materiais, que relegaram as conquistas espirituais ao plano do esquecimento.

Por fim, os desafios do Evangelho, para o espírita, passam pela assimilação da profundidade dos ensinamentos do Cristo. Passam por deixarmos as discussões frívolas, superficiais e abraçarmos aquilo que nos tornará seres humanos melhores, mais fraternos, menos egoístas e orgulhosos.

Que Jesus renasça diariamente em nossos corações e mentes, iluminando nossos caminhos para que possamos fazer algo de bom para o próximo, mais próximo e mais carente!